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MEMÓRIA
Passeio na Serra Verde
* Nilson Patriota - Da Academia de Letras do RN

Manhã de abril. De férias e desobrigado da rotina, passeio pela Serra. Revejo o panorama com a familiaridade com que um velho marujo olha o mar. Há anos não andava por aqui. Mas há dias a saudade me bateu à porta, e eis que aqui me acho para satisfazer essa irrecusável exigência do meu eu. Instalado em casa de Genário, fico em contato com o povo da Serra e levo longas conversações com pessoas que há muito não via. Pergunto por alguns dos antigos habitantes do lugar. Dizem-me que alguns deles faleceram ou já se mudaram do lugar. A maioria, porém, ainda se acha em atividade, cuidado de suas lavouras e tocando a vida para frente.Lamento pelos que faleceram, embora me dê conta de que estariam com mais de um século de existência, pois foram amigos ou conhecidos de meus pais, de meus tios, do pessoal mais antigo da família.
Recordo a paisagem da Serra como era em meus tempos de outrora. Tão familiares seus caminhos, suas trilhas margeadas pelo mato que se erguia verdejante, dando sombra e fazendo parecerem mais estreitos do que eram. Tais caminhos e trilhas tiveram utilidade para aqueles que praticavam, cotidianamente, a caça. Ao longo do percurso, em sítios apropriados, os caçadores armavam mundéus ou engendravam arapucas para as presas. Nessas armadilhas caíam, geralmente, animais de pequeno porte como caititus, pebas, cotias. Às vezes acontecia cair uma presa maior como um tamanduá e mesmo um veado. Mais difícil era a captura de onças, cuja carne não era das melhores, mas valiam pelo pelame macio e lustroso, muito desejado pelas mulheres das cidades, que o ostentavam, depois de curtido, nas salas e paredes à moda de tapete,
Os primeiros povoadores da serra foram os índios tapuias. Extintos estes, vieram para a região alguns daqueles homens ferozes que participaram na guerra de extermínio do indígena. Como não dispunham de gado, a não ser o estritamente necessário para o fornecimento de leite aos recém-nascidos da família, tinham, necessariamente, que praticar a caça a fim de melhorar a deficiente dieta alimentar, toda ela à base de grãos e de uns poucos tubérculos e legumes. No tempo em que a Serra Verde começou a ser de fato desbravada, ainda eram numerosas as espécies de mamíferos e aves que a habitavam. O mel de abelha, desde então abundante, era outro produto natural consumido pelos moradores. Mas estes jamais foram muitos, e só se tornaram numerosos por volta da terceira década do século XX, quando, a cargo do Departamento de Obras Contra as Secas, do Ministério de Viação e Obras Públicas, os primeiros poços artesianos começaram a ser perfurados na região do mato grande, de forma paralela ao desenvolvimento da açudagem nos sertões.
Nesse tempo, a cobertura vegetal da Serra ainda continuava quase intacta. Dir-se-ia estivesse sendo preservada para mais tarde vir a ser derrubada pela mão do homem. Aqueles que conheceram a Serra antes de ser devastada em seus recursos naturai, deve tê-la chamado de “terra prometida”, ou “da promissão”, como à bíblica Canaã os antigos hebreus denominaram. Seu clima e panorama induziram alguns a enriquece-la com esses velhos dísticos, vez que era como tal que a viam em meio à sequidão do semi-árido sertanejo pois era assim que a viram aqueles que, fugindo das estiagens, a partir de 1877 iniciaram o seu povoamento. Entretanto, muito antes disso a Serra Verde servira de celeiro ao indígena interiorano, que a utilizavam para a caça. Dali desciam, por sua vertente oriental, para o Atlântico, onde realizavam pescarias. Um dos pontos de concentração pesqueira foi Caiçara. O étimo indígena ainda prevalece na denominação do município litorâneo. Rodolfo Baro, cronista holandês e soldado a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, em 1644 nos dá notícias da Serra, dizendo haver acompanhado o “rei” Janduí, líder da coalização tapuia que em 1633 apoiou os holandeses de Pernambuco na tomada da Fortaleza do Rio Grande. Que fora fazer o “rei” Janduí na Serra Verde? Coisa simples: colher espigas de milho em uma das plantações mantidas pelos tapuias naquela localidade.
No início do século XX, era pequeno o número de habitantes da Serra. Por isso seu território foi mais conhecido do vaqueiro do que do agricultor. Ali a vaqueirama de Touros, do Parazinho e da Baixa Verde buscava as reses pertencentes a “sua conta”, que por ocasião da “ferra” se achavam tresmalhadas. Já então, um ou outro agricultor sem terra havia se fixado com família em terreno “apossado” em que erguera cabana e plantara roçarias. Vivendo nos ermos da Serra, raramente contatava os vizinhos que, por sua vez, se achavam a distância de léguas.
Para criar gado a Serra era pouco propícia, já pela densa presença da mata, já pela ocorrência de onças, já pela dificuldade do abastecimento d’água para o homem e o gado. Mas, a partir de 1930, algumas fazendas já se achavam instaladas nos aceiros da Serra e as primeiras povoações começavam a surgir na chapada. Começaram a se delinear nas vertentes sul, oeste e sudoeste, mas logo em seguida surgiram arremedos de povoações a este, acompanhando a chamada “costa de Touros”, ou “costa do sertão”, que se estende da ponta do Calcanhar à península de Galinhos.
Hoje, porém, são muitos os povoados (em sua maioria assentamentos do MST) e os caminhos. E até já existe estrada de asfalto atravessando a Serra, tendo a finalidade de efetuar a ligação entre o litoral tourense, a cidade de João Câmara e a todo o sertão. Creio, porém, que a estabilidade deste ecossistema está com os dias contados.
Excitado com o planejado passeio, logo cedo desperto, trato de calçar minhas botinas de campo, e saio, a pé, pelo caminho, admirando os recantos bucólicos da Serra, vendo os campos arados e os sítios em que, a título de reflorestamento (e a fundo perdido), milhares de cajueiros foram plantados. Os beneficiários não são, em regra, agricultores locais, porém capitalistas da capital, sempre atentos aos modos fáceis de embolsar dinheiro do governo (quero dizer do povo) emprestado, de forma paternalista, a fundo perdido.
Que país diferente!
Sigo pelo caminho e pego a estrada carroçável, que então desconhecia. Olho para os lados, inteirando-me daquilo que vem sendo feito em termos de desenvolvimento mecanizado da lavoura. As máquinas são poucas no campo. Quando muito um trator, uma capinadeira, um arado. Por toda parte, as cercas de arame farpado protegem campos com lavouras já crescidas e também recém-plantadas. Distingo, pela folha, a mandioca – o trigo nordestino – mas também o milho, o feijão, o gergelim. Há poucos legumes e ainda menos hortaliças. Às vezes, encontro campos de algodão. Em certos sítios, junto às casas, há coqueiros, azeitoneiras, mangueiras. Porém o que é forte, mesmo, são as plantações de cajueiros. Estas se alastram por sobre o maciço e as abas da Serra. Todas elas simetricamente alinhadas. Vejo-as se perdendo de vista à luz indulgente da manhã.
Depois que caminho cerca de mil metros, faço uma pausa para fitar o céu, averiguando as condições do tempo, questionando com os meus botões sobre a possibilidade de chuva nas próximas horas, pois, embora esteja para o que der e vier, prefiro minhas botas enxutas, e não molhadas.
Ao leste distingo nuvens pesadas, que se concentram, acredito, sobre o oceano. Outras, porém, menos escuras, se acham próximas. Tangidas pelo vento tratam de se agrupar numa espécie de barra fechando o horizonte. Outras nuvens deslizam, passam por sobre a serra e continuam sendo levadas na direção do oeste. As circunstâncias climáticas são as mesmas, nesta época do ano, aqui na Serra. E assim, sem ter a que temer, acerto o passo na estrada, continuando meu passeio. Ando sem pressa, pisando no solo sem esforço, objetivando atingir a parte mais alta do platô, de onde visualizarei a amplidão agreste que, possivelmente, em 1501 foi de longe avistada por Américo Vespúcio ao demandar a esparsa e desnuda costa Touros, onde haveria de ancorar, a fim de fazer a chantadura do marco manuelino. Era assim que Portugal efetuava a posse das novas terras descobertas pelos seus capitães. Aquela expedição fora enviada para legitimar a posse da nova terra descoberta no ano anterior pelo capitão da segunda viagem às Índias, Pedro Álvares Cabral.
De leve sou tocado por versos impressionantes concisos de Fernando Pessoa: O esforço é grande e o homem é pequeno (...) A alma é divina e a obra é imperfeita.

ARTIGO
Passeio na Serra Verde II
* Nilson Patriota - Da Academia de Letras do RN

As distâncias aqui nunca foram pequenas. De um ponto a outro a gente anda e anda até cansar. E, enquanto isso, vai olhando e descobrindo coisas que só poderiam ser vistas e descobertas andando-se a pé. Gostaria de encontrar uma forma de chegar ao ápice da maior elevação da Serra só para ver se avisto o oceano. Tento dar seqüência às minhas descobertas e me perseguem, constantes, os versos do Poeta, enchendo-me o coração de avoengos pesares e saudades: Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!
Mar, imenso mar, domado e cruzado por um heróico povo que se agiganta ao tripular barcos minúsculos, porém fortes. Povo que se afirma no tempo, desafiando a rigidez moral e mortal da Santa Inquisição; que esquece seu secular abatimento e arrosta, por sua corajosa e decisão, o status quo medieval, mortificante; a ignorância e as superstições; que revalida, com a reconquista, sua emancipação política, obtendo sua independência após sete séculos de domínio mouro e trezentos anos de lutas e combates de seus líderes dinásticos. Povo que se lança à descoberta de Cathay, o Eldorado oriental, após cem anos de preparos e navegações; povo que descobre o Brasil.
Valeu a pena? – pergunta o poeta. Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena.
A brisa corre, solta, pelo espaço. Cantarolando baixo, para não incomodar meus vizinhos, os macacos que me seguem, continuo andando pela trilha. Sinto e aspiro o frescor da manhã. Cheiro flores silvestres e aspiro o odor de mato verde e terra molhada. A toda rajada de vento vejo o matagal se inclinar. Como são leves e flexíveis os arbustos. O que mais me agrada é temperatura ambiente. Aliás, a Serra tem e sempre teve clima ameno e diferenciado, apesar de sua baixa altitude, não obstante nem ao menos ser serra, senão somente chapada a que o povo de outrora apelidou de serra. Imagine, serra! Se, pelo menos, tivesse o porte de Portalegre ou Martins, de Luís Gomes ou São Miguel, escarpados maciços que se elevam na chamada “tromba do elefante”, oeste do Estado, nem por isso... Mas a Serra Verde não ultrapassa os 300 metros de altitude acima do nível do mar. É, todavia, beneficiada pelos ventos alísios que sopram desde o Atlântico, e por isso seu clima é sempre mais ameno do que o da planície costeira e do semi-árido sertanejo. E assim, embora esteja encravada no Polígono das Secas, sazonalmente a Serra desfruta de leve clima temperado, principalmente depois que o sol se põe e o dia escurece. Espécie de oásis na Região do Mato Grande, a Serra se estende sobre partes de Touros e de São Miguel do Gostoso, beneficiando, de alguma forma, alguns outros municípios da região que conta com Parazinho, João Câmara (antiga Baixa Verde), Jandaíra, Pedra d’Água, Pedra Preta, Pureza, Ceará-Mirim, Rio do Fogo, Barra do Maxaranguape, Galinhos e Guamaré.
De ontem para hoje o clima refrescou, pois à noite choveu, e logo nas primeiras horas da manhã.
Não direi, como O Cântico dos Cânticos, que Desci ao jardim das nogueiras / para ver os brotos dos vales, pois todo o tempo caminho subindo a Serra pela estrada que me leva ao seu ponto mais elevado sem ser íngreme.
As roças plantadas erguem a folhagem verde e me dão esperança. Aqueles que as plantaram haverão de ter boa safra, fazendo em junho uma boa colheita.
E assim, enquanto me inteiro de tudo e principalmente dos novos aspectos dos sítios, de longe examino as condições das residências, dos armazéns, das alpendradas e dos telheiros protetores da rústica maquinaria das casas de farinha e dos criatórios de porcos e aves. Penso, então, que a Serra poderá se tornar celeiro, caso todos esses assentamentos feitos em antigas fazendas de sisal, entre as quais a própria Zabelê, venham contribuir, de fato, para o fortalecimento da reforma agrária, hoje tão discutida, criticada e também almejada.
Vejo com certa simpatia que, apesar da pobreza do povo, em certos aspectos a Serra Verde pode se tornar parte importante do sonhado Brasil, esse país belo e pujante com que sonhamos e ao qual se referem os que habitam as grandes cidades e que jamais se dignaram a se debruçarem sobre o mais ostensivo problema brasileiro: o emprego da mão-de-obra ociosa. Como será possível a instalação da reforma agrária quando não se dispõe dos mínimos meios para sustentação e desenvolvimento? Quando não dispomos sequer de organização?
Preciso andar mais depressa, pois meu desejo é ver tudo de perto para melhor compreender as razões principais de se manter em um país tão rico uma crônica pobreza. Mas também sentir esta natural e simples beleza vegetal que se dissemina sobre a Serra.
Como João Cabral de Melo Neto (penso em sua poesia tão sem graça, mas de tanto peso) não desejo sair de meu poema como quem lava as mãos, mesmo tendo Antonio Rangel Bandeira a testemunhar as intenções.
Sinto que a fresca manhã (parecendo uma virgem saindo do banho), já se instala, definitiva e pura, sob a intermitente e fria neblina.
Agora ando a mil e levo dentro de mim esse sensível e indescritível sentimento de paixão pela vida. Construo, ao mesmo tempo ousado e negligente, uma cena ideal no pensamento. Abro todas as portas para o entendimento e, ao acaso, manejo as ferramentas da felicidade que exerço. Não desejo voltar. Quero ir adiante vivenciando esta Serra e administrando-a em pensamento como se fora um rei de volta a seus domínios.
Quem se sente rei se sente com direitos geralmente inalienáveis. Por isso quero ouvir, em detalhes, esses maviosos cantos, essas batidas de foice e de machado, esses zumbidos quase inaudíveis de vespas e esses cicios de esforçadas formigas e lagartas que devoram a pastagem.
Olho em torno e fico a revolver-me, fitando os acolhedores e macios ninhos balançando no alto das ramagens mais densas. Fico estarrecido com a concentração de flores. (As flores são de quem as conseguir colher), dizia tia Eulália ao cantar uma velha canção. Enquanto isso os ninhos pertencem aos corrupiões, aos casacas-de-couro, aos curiós. São moradas temporárias e maternidades rotativas, estabelecidas por pintassilgos, golinhas, canários e rouxinóis. Mas, bens inalienáveis enquanto seus.
Os pássaros. Vejo-os voando e conduzindo gravetos no bico; levando também ramos e folhas, material necessário ao confortável entrelaçamento do ninho, num trabalho que supera, de muito, a arte dos tecelões e a habilidade das costureiras.
São muitos e variados os cantos, os trinados e assobios. Bem menos, entretanto, os queixumes e lamentos de pombas, arapongas e asas-brancas.
Aos saltos lá se vão os sagüis, de galho em galho. Penduram-se suspensos nos cipós, emitindo gritos que podem ser alegres, apavorados ou de mera irritação. Gesticulam e se coçam, enervam-se e batem uns nos outros, se agarrando e se mordendo. Mas tudo logo passa, e ei-los irrequietos a brincar novamente. Toda aquela mudança de comportamento, todo aquele alvoroço, oriundas da arenga pela minha chegada ao sagrado território ancestral.
Bem à minha frente vejo bem-te-vis e papa-lagartas. Pousam silenciosos nas estacas da cerca e logo esvoaçam. Também vejo rolinhas caboclas à beira das poças, rolas-cascavel catando pedrinhas. Um bando de periquitos gritando. Contudo, mais educados são os sabiás e os galos-de-campina. Bicam frutos e apanham insetos, sempre atentos. Quando me aproximo, agitam as asas e levantam vôo. Pousam mais adiante.
Agora, que a chuva passou e o ar transparece lavado, posso me deleitar com o azul do céu contrastando com o verdor da Serra. Na branca luz solar as nuvens se aclaram, assumindo curiosas formas e contornos de rios, oceanos e montanhas. Os raios solares incidem sobre as nuvens mais baixas, que perfuram e atingem a crosta terráquea molhada.
Ah, o cheiro acre dessa terra! O perfume silvestre dessas flores, o odor de esterco bovino disseminado pelo ar! Todos esses perfumes de características próprias e diferentes dão-me a sensação prazerosa de que mereço esse ócio.
Aqui na Serra desfruto da vida. Ando à-toa, sem medo, sem sobrosso. Sou um ser em total segurança.

ARTIGO
REESCREVENDO A HISTÓRIA – I
FENÍCIOS NA HISTÓRIA DE TOUROS
(DE LUDWIG SCHWENNHAGEN A CYRO GORDON)

Recentes e dramáticas evidências – arqueológicas, etnográficas e lingüísticas – parecem confirmar aquilo que desde o ano de 1928 um filólogo e historiador austríaco, chamado Ludwig Schwennhagen, havia registrado fartamente em artigos publicados na imprensa e em um livro um tanto erudito e um tanto prosaico, intitulado Antiga História do Brasil - de 1100 a.C. a 1500 d.C. Naquela ocasião, diga-se de passagem, sua tese não alcançou mais que o interesse da curiosidade de uns poucos estudiosos, restrita que ficou ao limitado âmbito de Estados como o Piauí, o Ceará, o Rio Grande do Norte, a Paraíba e Pernambuco. À falta de maior divulgação, não alcançou o eixo Rio-São Paulo, onde tradicionalmente têm pontificado os grandes estudiosos da historiografia oficial brasileira, como Pedro Calmon e outros mais.
Consciente da importância de sua tese e confiante na fidelidade daquilo que afirmava, o professor Ludwig Schwennhagen se viu sem recursos para levar adiante sua difícil empreitada, abstraiu-se e sumiu, deixando, porém, o seu legado: não mais que a esperança de que alguém devidamente qualificado apareça e torne internacionalmente conhecida a teoria edificada por seu trabalho precursor. Cremos, porém, que nem ele não foi capaz de avaliar, e menos ainda dimensionar, a importância pioneira do livro que escreveu. Antes de encerrar sua mal vista ingerência em assuntos da Pré-História brasileira, sendo ele um austríaco judeu, Schwennhagen fingiu ou procurou ignorar a morna apatia da intelectualidade cabocla, sem a necessária base e os preciosos meios técnicos para lidar com os temas abarcados em sua tese, limitando-se à troca de opiniões com outros idealistas como ele.
Postulante de uma tese que oferecia a primazia do descobrimento da América a povos marinheiros do Mundo Antigo, entre eles os fenícios, roubando, assim, a glória ao genovês Cristóvão Colombo, o austríaco logo foi acusado de forjar uma causa cavilosa. Ele, no entanto, não obstante a espécie de indigência científica em que aparentemente se mantinha, era na verdade um pesquisador sério e atilado, buscando explicação para as numerosas inscrições rupestres por ele sabidas e visitadas, que pareciam nada transmitir aos nossos arqueólogos e historiadores. Uma de suas premissas visava a elucidação daquilo que, para ele, significava indício de contatos entre indivíduos do Velho Mundo e da Antiga América por volta da Idade do Ferro.
Ludwig Schwennhagen esteve, em 1926, no Rio Grande do Norte. Em Natal, visitou Luís da Câmara Cascudo, que escreveu uma ou duas Actas a respeito dele no jornal A República, então o principal veículo de divulgação na capital. Também esteve pesquisando pelo interior em municípios como Acari, Carnaúba dos Dantas, Jardim do Seridó, lugares em que teve contato com pessoas que lhe disseram conhecer algumas inscrições rupestres em cavernas da região. Na ocasião, Schwennhagen também visitou as vilas de Touros e de Estremoz, nas quais acreditava haver indícios de uma milenar colonização fenícia. Da visita a Touros e a Estremoz resultou uma Memória por ele elaborada e que foi publicada no jornal A União, de João Pessoa, Paraíba, em 21 de janeiro de 1926, e que seria, posteriormente, transcrita em A Pacotilha, jornal de São Luís, Maranhão, em 26 de janeiro do referido ano de 1926. A transcrição da citada Memória no jornal A República é do dia 31 do mesmo mês e ano.
O original do manuscrito sobre Touros e Estremoz, assinado por Ludovico Schwennhagen, que já então havia aportuguesado o nome, foi por ele doado ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, que o incorporou ao seu acervo, na esperança de que, futuramente, pesquisadores venham a se interessar pela tese tão intensamente defendida pelo historiador austríaco e por último endossada pelo antropólogo e especialista em línguas cananitas, Professor Cyro Gordon, catedrático na Brandeis University de Boston, USA.
A Memória de Ludwig Schwennhagen, com o título bizarro de Touros e Estremoz – Antigas Estações Marítimas do Extremo Nordeste Brasileiro, não traz a data em que foi escrita, embora tudo indique ter sido no início de 1926, quando ele por aqui esteve.
Admitir que o trabalho do historiador austríaco é desprovido de verdade e valor seria o mesmo que não admitir – o que cientificamente seria um erro – a existência de elos entre povos marítimos do Velho Mundo e algumas populações da Antiga América. Atualmente, muitos estudos têm sido empreendidos no sentido de que fique claramente explícito o fato de que o Atlântico sempre foi rota de navegação, como devem ter sido o Índico e o Pacífico, para povos marinheiros que souberam navegar baseado na posição dos astros, e não apenas por estimativa e tentativa, tal qual se fazia na Idade Média.

ARTIGO
REESCREVENDO A HISTÓRIA – II
FENÍCIOS NA HISTÓRIA DE TOUROS
(DE LUDWIG SCHWENNHAGEN A CYRO GORDON)

Nilson Patriota

“Antes da cidade, houve a pequena povoação, o santuário e a aldeia; antes da aldeia, o acampamento, o esconderijo, a caverna, o montão de pedra; e antes de tudo isso, houve certa predisposição para a vida social que o homem compartilha, evidentemente, com diversas outras espécies animais”.
(Lewis Mumford; A Cidade na História)

Atualmente predomina entre os etnógrafos, tendência para acreditar que marinheiros e mercadores fenícios, seguidos por outros povos semíticos teriam empreendido navegações oceânicas em época anteriores à cristandade, ao Novo Mundo, e que a pelo menos três mil anos, ultrapassando ele o Neolítico, efetuaram viagens ao Ocidente. Tendo no Mar Vermelho, possivelmente do porto de Ezion-Geber, os fenícios penetraram o Mediterrâneo Ocidental, passando daí para o Atlântico, por onde se aventuraram nos arquipélagos do Cabo Verde e nos Açores. Ao explorar essas ilhas, nelas encontraram uma população disposta a negociar a troca de mercadorias. Numa dessas viagens, os fenícios aproveitaram ventos e as correntes favoráveis, e assim foram levados pela aventura e a curiosidade a procurar saber o que se escondia na distância. E assim procedendo, vários dias depois aportaram a uma ilha que julgavam fosse a Ilha de Ferro, sobre a qual tinham ouvido falar. Tal ilha, logo verificaram, outra não era senão o rebojo do saliente nordestino numa região em que as correntes dirigem-se para terra. O maior desses grandes rios oceânicos é representado pela Corrente Equatorial. Vinda da África, esta corrente atinge o cotovelo do continente e em seguida se encaminha para o Equador, onde encontraram as Guianas.
Feita a travessia na parte mais estreita do Atlântico (entre Dakar e Touros), os fenícios dão início a uma série de contatos com as populações nativas do Ocidente. Embora neolíticas, essas populações se tornam receptivas e interessadas nos produtos dos alienígenas, e assim procuram as acolhe sem reserva.
Como os fenícios já possuíam um alfabeto, que utilizavam para suas transações comerciais, este se mostrou importante, sobretudo após ser aperfeiçoado em contato com os gregos, de quem se aproximaram depois que regressaram do Ocidente.
É possível que os fenícios tenham deixado inscrições cananitas em rochas próximas da costa brasileira. Mas é possível que os avanços e recuos das marés nos milênios seguintes haja contribuído para que as mesmas hajam desaparecido. Mas o certo é que, voltando à Fenícia, os comerciantes viajores deram notícia de seus feitos e das inscrições comprovando sua estada no distante Ocidente. Tais inscrições, feitas com letras do alfabeto fenício de Tiro e Sidon.
Essa viagem inicial, ensejada por causas alheias á vontade dos marinheiros, inspirou uma série de outras viagens com objetivo como o da colheita de minério de ferro, ouro e madeiras de lei, para a construção civil e naval e o fabrico de tintas. Nessas hipotéticas viagens subseqüentes, os fenícios costumavam conduzir em seus navios experientes mineradores egípcios e marujos hebraicos, árabes e até mesmo gregos. Daí o porquê da existência de inscrições com letras da escrita demótica do Egito, do grego paleográfico, do hebraico, do árabe e até do chinês, além de algumas outras com sinais de idiomas que ainda não foram identificados, mas que foram copiadas por seus descobridores em várias partes da hinterlândia brasileira.
Tais afirmações, no mínimo revolucionárias, vindas à luz através do historiador austríaco Ludwig Schwennhagen, não poderiam deixar de causar espécie, mantendo em suspense a intelectualidade brasileira e até mesmo irritando os que enaltecem os descobrimentos baseados nas narrativas dos historiadores ibéricos.
Portugal e Espanha não abrem mão de suas glórias. A Portugal se credita toda a navegação transatlântica positiva na costa africana desde 1417. À Espanha é creditado o descobrimento da América. Esquecem os historiadores, que somente a partir do século XV Portugal, seguido no século XVI pela Espanha, deu iniciou as grandes navegações. Todo o longo passado que procede das culturas e civilizações florescentes no Oriente Médio da Idade do Ferro e até mesmo do Bronze, permanece desconhecido em muitos de seus importantes aspectos. É como se nesse período nadas houvesse acontecido, quando sabemos que no Oriente Médio civilizações se sucederam.
Um longo e profundo silêncio oculta a diversidade do viver e da atividade do homem nesse período em que os feitos náuticos tiveram início no Mar Vermelho, no Mediterrâneo, no Oceano Índico, mas também no Atlântico e no Pacífico.
Submetidos ao colonialismo cultural europeu, os adeptos da presunçosa teoria da superioridade racial, conforme sugerida por Joseph Arthur Gobineau (1816-1882) e Friedrich Nietzsche (1844-1900), sobretudo o primeiro, autor de obras que realçam as desigualdades das raças humanas, exaltando a superioridade de algumas etnias e outras condenando ao ostracismo, os povos tecnologicamente atrasados foram marcados com o estigma da inferioridade racial. Alguns dos mais ardentes defensores dessas falsas teorias, que a certa altura dos acontecimentos políticos foram transformadas em ciência genética, trataram de correr em defesa do que os seus senhores ensinaram. Despreparados, aceitaram a pecha de inferioridade que a ciência atual e a lógica rejeitam.
Em que viriam se transformar esses arautos da pureza racial, senão nos insuportavelmente subservientes cavalos-de-aluguel do Totalitarismo? Foram, na hora adequada, os porta-vozes do nazi-fascismo que há muito se anunciava através de idéias postulando um padrão racial como único modelo do permitido ao homem do futuro. Que falácia!
Outros, por mais quietos que atrevidos, preferiram calar a se opor de forma facciosa ao judeu-austríaco Schwennhagen. Mesmo assim continuaram de sobreaviso, à espera do preciso instante da solerte investida. Por isso foram poucos os intelectuais que acolherem a teoria de Ludwig Schwennhagen. Entre estes, talvez seja possível anotar meia dúzia de nomes. Antropólogos, indianistas, descobridores de petróglifos em cavernas e paredões marcados com sinais e letreiros a que os nossos antropólogos, à falta do necessário profissionalismo, logo apelidaram de “brinquedos de índios”.
Embora pouco festejado por sua teoria, Ludwig Schwennhagen pelejou belamente. Durante décadas buscando comprovação para o que aprendera com a leitura do historiador grego Diodoro, estoicamente suportou os ataques com que alguns buscaram desvalorizar sua obra. Estudioso, continuou desafiando os que o invectivavam.
Radicado em Teresina, Piauí, onde ensinou Latim e Filologia, dedicou sua existência à pesquisa de campo. Coletava pedras de vários formatos enquanto copiava e tentava decifrar intrigantes inscrições.Vários destes monumentos foram vazados no formato da escrita Hebraica e Cananéia, outros na forma de hieróglifos egípcios. Dessa atividade pioneira ficaria na memória do povo nordestino a tradição simpática de um alemão afável e grandalhão que havia se dedicado a colecionar objetos sem valor aparente e a conversar sobre assuntos sem qualquer interesse, enquanto com outros tão quixotescos quanto ele, bebericava um trago de aguardente numa mesa de bar.

ARTIGO
REESCREVENDO A HISTÓRIA – III
FENÍCIOS NA HISTÓRIA DE TOUROS
(DE LUDWIG SCHWENNHAGEN A CYRO GORDON)

Nilson Patriota

“As culturas do Velho Mundo e da América pré-colombiana já se estavam desenvolvendo seguindo linhas separadas e, dentro dos limites do próprio Velho Mundo, o despertar da civilização iniciou uma série de crescente diferenciação regional”.
(Toynbee; “A Humanidade e a Mãe-Terra”).


Ludwig Schwennhagen veio para o Brasil antes que na Europa a Primeira Grande Guerra estourasse. Desde a primeira década do século XX ele empreendia viagens de estudo e pesquisa através do território brasileiro. Numa delas, em que teve por companheiro o Deputado Federal Monteiro Lopes, alcançou a fronteira do Peru. Nessa oportunidade, visitou as comunidades de Tefé, Fonte Boa, São Paulo de Oliveira, Santa Rita e algumas outras no Amazonas, conhecendo de perto nosso povo e recolhendo elementos para futuros escritos e conferências sobre a gente e os problemas brasileiros.
Moacir Lopes, etnógrafo e jornalista do Recife, Pernambuco, autor e organizador das notas e apresentação da 2ª edição da Antiga História do Brasil – De 1100 a. C. a 1500 d. C. – , publicada pela Editora Cátedra, do Rio de Janeiro, em 1970, resume de forma sucinta e emocionante sua longa análise sobre a obra de Ludwig Schwennhagen:
“Esta obra terá vida longa na literatura histórica brasileira, principalmente a partir de agora, quando o Patrimônio Histórico, através de seu diretor Renato Soeiro, e por inspiração e grande interesse de Renato Castelo Branco no exame das ruínas e inscrições das Sete Cidades, vai subvencionar pesquisas nas áreas do Nordeste, nomeando Universidades e Museus em vários Estados do Brasil como seus representantes regionais, principalmente o Museu Goeldi, do Pará, através de seus pesquisadores, que deverão viajar neste ano em visita às Sete Cidades. É iniciativa, enfim, de enfrentar-se o problema. E esta obra será, talvez, a maior fonte de consulta”.
Esta é, sem dúvida, uma forma esmerada de se incentivar o estudo de questões que ainda não foram devidamente analisadas pelos pesquisadores do nosso país, não obstante a extensa literatura sobre a Pré-História deste Hemisfério, a qual se acumula em obras curiosas e notáveis nas venerandas estantes das bibliotecas tanto públicas quanto particulares.
Moacir Lopes, porém, não faz apenas incentivar novos estudos das teorias de Ludwig Schwennhagen. A análise que realiza ultrapassa, de muito, o papel que se espera de um prefácio, transformando-se numa quase biografia em que se rastreia a existência do biografado a partir de seus primeiros tempos em nosso país. E, em sendo assim, intenso deve ter sido seu trabalho, vez que informa até mesmo o fato de haver encontrado, na Biblioteca Nacional, secção de Obras Raras, aquilo que vem comprovar a ininterrupta atividade intelectual do historiador austríaco, recém-chegado ao Brasil: nada mais que um livreto no qual ele se identifica como membro da Sociedade de Geografia Comercial de Viena, d’Austria. O livro, escrito em parceria com Luciano Pereira da Silva, Publicista, traz o título de: “Meios de Melhorar a Situação Econômica e Moral da População do Amazonas”.
Nesse pequeno livro são enfeixadas duas conferências por ambos pronunciadas no Salão Nobre da Associação Comercial do Amazonas na noite de 15 de agosto de 1910. A publicação é da Tipografia do Jornal do Comércio – Rio de Janeiro – 1912. Desse fato se depreende que o historiador austríaco já então se dedicava a alguns empreendimentos que, conquanto aos observadores mais pragmáticos dêem a impressão de quixotescos, não perdem sua validade como obras práticas que, embora audaciosas, eram realizáveis. Schwennhagen concebera, naquela oportunidade, a realização de uma colonização de parte do Amazonas por famílias cearenses, vista como visionária pelos seus críticos. Puro equívoco dos que o criticaram, porquanto concretizada de forma natural, anos depois, pela espontânea migração nordestina, que aconteceu em levas sucessivas desde a primeira década do século XX, e intensificadas durante a febril exploração da borracha no esforço de guerra do Brasil e dos States ao longo do segundo grande conflito mundial.
A civilização helenística fundiu as culturas grega e oriental sem levar em conta a moralidade dos deuses que podiam mudar de forma e interferir na vida dos homens, alterar seu destino, porém não a sua natureza. Não só no sincretismo religioso da sociedade amazônica, que fora miscigenada com os componentes das raças principais – indígena, branca e negra – persistiam junto a resquícios de épocas em que a Humanidade local respondera a necessidades neolíticas, inscrições rupestres vazadas com materiais tão duros quanto o bronze e o ferro. Como foram vazadas? Ludwig indagava.

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REESCREVENDO A HISTÓRIA – IV
FENÍCIOS NA HISTÓRIA DE TOUROS
(DE LUDWIG SCHWENNHAGEN A CYRO GORDON)

Nilson Patriota

“Nós outros, fenícios, não temos o espírito tão grosseiro, nem o Sol atrela os cavalos tão desviado da cidade tíria. Quer vós desejeis chegar à grande Hespéria e aos campos de Saturno, quer aos confins do Érix ou ao reino de Acestes, mandar-vos-ei seguros dando-vos auíilio, e ajudar-vos-ei com recursos”.
(Vergílio; ENEIDA)


Que motivo levou Ludwig Schwennhagen a postular as viagens fenícias ao Brasil, através do Atlântico? Algo muito especial: as inscrições rupestres por descobertas em sítios diversos do interior brasileiro. A principal delas, a de Pouso Alto, na Paraíba, assunto ao qual volveremos nos próximos capítulos. Levado por seu conhecimento filológico, ele sabia que os povos semíticos, diversamente dos europeus, faziam uso de escritas alfabéticas por dois aspectos: a direção normal de escrever era da direita para a esquerda, como ainda acontece com árabes e hebreus, e os sons de vogais e ditongos não eram escritos, embora subsistissem entre as consoantes (b,k,d,f,g, etc.). Os gregos conheceram os alfabetos do Levante quando passaram a ter contato regular com os fenícios entre 950 e 800 a. C. No momento oportuno voltaremos à questão. Por enquanto, pendamo-nos à narrativa dos primeiros anos do historiador austríaco no Brasil, dando seqüência ao capítulo anterior.
Falávamos que, em determinado trecho de sua conferência no Amazonas, Schwennhagen dizia que havia ainda uma outra objeção importantíssima: segundo seu plano de colonização, até dez mil famílias cearenses poderiam ser domiciliadas naquele Estado como colonos... “E quando os cearenses virem que como colonos domiciliados podem encontrar, para si e para suas famílias, uma vida melhor e um lucro mais alto que viajando como nômades de um lado para o outro do país...”, etc., etc.
Aos espíritos mais rudes e desconfiados, tal propósito não pode passar de uma utopia. Para estes não soa bem a idéia de um estrangeiro procedente de uma região habitada por um povo prático e utilitarista, como os germanos, sobretudo quando esse germano também era judeu. Fica-se, então, a pensar: por que iria um judeu germânico se interessar por problemas sociais duma região a ser ainda desbravada e em vários aspectos selvagem? Estaria ele a serviço de outra causa que não apenas a História? Seja lá como for, o certo é que nos parece inegável o fato de que, já em 1910, Schwennhagen percorria o Brasil, cuidando de questões nas quais somente poucos brasileiros costumam se envolver, mas sempre aqueles que integram uma minoria seleta, consciente, e interessada no bem-estar de seus desafortunados compatriotas excluídos.
Porém a recompensa do pesquisador viria com a possibilidade de poder comprovar suas teorias. Com assiduidade e espírito de cooperação, ao tomar conhecimento de que ele era um sábio, o povo do interior tomou para si o intento de leva-lo a examinar inscrições de séculos, ou milênios, gravadas no interior de furnas ou cavernas parecidas ou até mesmo idênticas a tantas que foram por ele examinadas em ambientes parecidos ou semelhantes, situadas na Europa de onde viera. Algumas dessas inscrições tinham sido vazadas na pedra, outras pintadas com tinta indelével. As mais comuns lhe pareceram fenícias ou hebraicas, mas também árabes, chinesas, egípcias (escrita demótica).
Conhecedor do Grego, do Latim, do Tupi, e iniciado nas línguas semitas, muitas das quais já mortas, o pesquisador passou copiar e colecionar símbolos e escritas gravadas por homens do Velho Mundo que nos visitaram em nossa pré-história. Reveladas essas descobertas, um como desperta do interesse científico passou a ser seguido pela curiosidade popular. Mas a Arqueologia brasileira não se achava, à época, à altura de dos fatos. Poucos estudiosos deram ouvidos às teorias de Ludwig Schwennhagen. Um deles foi o engenheiro Raimundo Nonato Medeiros, delegado do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal do Piauí e Administrador do Parque Nacional de Sete Cidades, no município de Piracuruca. A ele se deve a existência do livro Antiga História do Brasil. No mesmo inspirou-se o historiador Victor Gonçalves Neto, em 1963, escrevendo para as Edições Aldeias Altas, Caxias, Maranhão, o livro Roteiro das Sete Cidades, publicado pela Imprensa Oficial de Teresinha. Nessa obra, lê-se a seguinte dedicatória:
“À memória de Ludovico Schwennhagen*, professor de História e Filologia, que em maio de 1928 levantou a tese meio absurda de que os fenícios foram os primeiros habitantes do Piauí. Em sua opinião as Sete Cidades serviram de sede da Ordem e do Congresso dos povos tupis. Nasceu em qualquer lugar da velha Áustria de ante-guerra, morreu, talvez de fome, aqui n´algum canto do Nordeste do Brasil. Orai por ele!”
Schwennhagen não foi apenas um teórico da História Antiga. E suas conclusões, que não foram entendidas, passaram a sê-lo a partir das últimas décadas do século passado, pelo fato de coincidirem com descobertas da moderna Arqueologia em toda América. Entre os autores modernos, cujas teorias testificam as antigas hipóteses de Schwennhagen, destaca-se uma das maiores autoridades mundiais em epigrafia Cananéia, Cyro H. Gordon, que pertenceu à Brandeis Universy, Boston, USA. Provavelmente, Gordon jamais pronunciou o nome Schwennhagen e talvez nunca tenha lido o que esse autor escreveu, mas, baseado em métodos modernos, chegou a idêntica conclusão: Houve elos de ligação entre o Velho Mundo e a Antiga América.
É o que veremos no próximo artigo desta séria que, em homenagem à juventude estudiosa de Touros, continuará sendo publicada neste jornal.

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REESCREVENDO A HISTÓRIA – V
FENÍCIOS NA HISTÓRIA DE TOUROS
(DE LUDWIG SCHWENNHAGEN A CYRO GORDON)

Nilson Patriota

“A cultura, ao contrário da natureza, resume o que o ser humano, para além das necessidades do momento e da vida pura e simples, encontrou e criou em valores espirituais, nas religiões, nas artes e nas filosofias”.
( H. Hesse; A ARTE DOS OCIOSOS)


Através da obra Antes de Colombo, do Dr. Cyro H. Gordon, é possível compreender o empenho de escritores como Ludwig Schwennhagen em informar sobre a presença de povos marinheiros do Velho Mundo na Antiga América, nisso incluindo uma colo
Sobre este assunto, no mínimo polêmico, Gordon chegou a fazer impressionantes revelações. E, ao tempo que expunha o produto de suas pesquisas, confortava os estudiosos do assunto. Não porque afirmasse algo que desafiava a verdade estabelecida ou desestruturava a forma instituída do pensamento histórico, mas pelo de suas conclusões admitir viagens e até mesmo uma colonização fenícias em nossa Pré-História. O que Gordon afirmou não foi uma simples suposição, e sim o resultado dos objetos, inscrições, monumentos, encontrados entre entulhos, nos letreiros rupestres, em desenhos delineados na obscuridade das cavernas por homens pré-históricos e também por acaso descobertos em lugares que jamais poderíamos imaginar que estivessem, mas sobretudo em escavações e em pesquisas levadas à exaustão por autoridades internacionais em Arqueologia, Etnografia, Antropologia, História e Filologia.
São documentos que, embora refutáveis pela incredulidade de muitos, como é o caso da conquista da Lua pelos astronautas da NASA, muito próximos encontram-se da realidade. Pois se firmam em vetustas inscrições que remontam à Idade do Ferro e mesmo à do Bronze. Tão palpáveis são os indícios da atividade do homem nos oceanos e mares que separam os Hemisférios Oriental e Ocidental, que já não se pode tachar de apócrifos os petróglifos, nem os relegar ao desprezo sem que antes expliquemos cientificamente a sua rejeição.
Muitas coisas aconteceram no transcurso do tempo. E desde sempre o clima da Terra tem mudado, periodicamente, apagando e também revelando vestígios. Nos últimos dez mil anos, têm ocorrido mudanças capazes de dificultar e confundir o nosso entendimento. Mesmo assim a Arqueologia tende a revelar testemunhos de culturas e civilizações das quais jamais tínhamos ouvido falar. As mudanças no clima do Planeta têm demonstrado como a Hidrologia das regiões se modifica. Em regiões que estiveram próximas de lagos e canais floresceram culturas que depois pereceram e foram soterras pela areia dos desertos. Sob a proteção da sombra das árvores e do frescor das savanas, espécies cresceram e se multiplicaram. Um dia tudo começou a mudar. As que conseguiram fugir continuaram, de alguma forma modificadas, noutra parte. As que permaneceram, foram extintas. Não há dúvidas de que essa aridez desértica, sepultura de vilas e cidades, foi habitat de faunas heterogêneas. A existência dessas faunas vem sendo redescoberta por ter sido registrada nos paredões das camadas geológicas, cavernas habitadas ao longo dos milênios. Impressiona saber que em plena África do Norte viveram comunidades que desenvolveram técnica avançada, como a da mumificação, ocorrida mil anos antes que os egípcios a praticassem. Que há oito mil anos ou mais o homem já pastoreava o gado, nele cultivando uma fonte de subsistência e de vida, a ele dedicando afeição e religiosidade entrevistas em resquícios de sacrifícios dedicados a deuses e deusas que tiveram nomes e foram poderosos, temidos, reverenciados. Que culturas Saarianas de cinco mil anos ou mais influenciaram o desenvolvimento social na bacia do Nilo, ensejando o aparecimento de obras que explicam e até autenticam inscrições vazadas em pedra e que nos dão conta do afã de pessoas como nós, que viveram o sonho e a aventura numa Terra bastante habitada por etnias várias e grupos sociais que, inconformados com o anonimato, foram levados a gravar na pedra o testemunho de suas vivências e passagens através da textura da temporalidade.
O que vamos dizer tem muito a ver com a obra de Ludwig Schwennhagen, Cyro Gordon, nosso passado. A princípio falaremos de uma inscrição parietal encontrada em fins do século XIX e que só agora começa a repercutir como relíquia histórica e testemunho de uma irreversível realidade: a de que o homem vem buscando a sobrevivência a muito mais tempo do que ordinariamente se presume.
Achada por escravos de Joaquim Alves da Costa, em Pouso Alto, perto da Paraíba, em 11 de setembro de 1872. Todavia, persiste a dúvida de que a referida inscrição tenha sido mesmo encontrada pelos homens do Sr. Joaquim Alves da Costa, ou descoberta pelo engenheiro de minas Francisco Soares da Silva Rotunda, que dirigiu, a respeito, um relatório, em 7 de julho de 1896, ao Presidente da província da Paraíba, o qual foi transcrito na Memória constante do nº 4 da Revista do Instituto Histórico Brasileiro. Na primeira versão, da Costa teria mandado copiar a inscrição achada por seus escravos, enviando-a por carta ao Visconde de Sapucaí, então presidente do Instituto Histórico Brasileiro, instituição da qual era membro o Dr. Ladislau Netto, que a examinou, considerando-a apócrifa, mas mesmo assim a submeteu ao Imperador D. Pedro II, homem de vasta cultura e autoridade em Árabe e Hebraico. Este, não se achando devidamente preparado para decifrar o letreiro, teve a prudência de submetê-lo ao crivo do sábio francês Ernesto Renan. Que o estudou, detalhadamente, antes de afirmar que era de origem fenícia. O documento, porém, teria sido enviado aos EE. UU, e por lá permanecera por aproximadamente 100 anos, até que o professor Cyro Gordon, reconhecida autoridade em epigrafia Cananéia, passou a se interessar pelo assunto e finalmente decodificou-o à luz das modernas técnicas usadas para a leitura de inscrições antigas.

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REESCREVENDO A HISTÓRIA – VI
FENÍCIOS NA HISTÓRIA DE TOUROS
(DE LUDWIG SCHWENNHAGEN A CYRO GORDON)

Nilson Patriota

Consideramos importante trazer à tona a controversa história desse achado que, se verdadeiro, colocaria em evidência a Arqueologia brasileira, já que viria confirmar que os fenícios foram os primeiros habitantes da hinterlândia nordestina brasileira, acabando de uma vez por todas com o mito de que Colombo descobriu a América em 1492, que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral em 1500, e que Ojeda, Lepe, Vespúcio e todos os demais navegantes que singraram ao longo do nosso litoral nada teriam descoberto, já que se guiavam por mapas que antecessores nautas haviam projetado durante prolongados cruzeiros anteriores à Era Cristã.
A História contada pelo professor Cyro Gordon, da Brandeis University, Boston, USA, em Before Colombo, é diferente, e se resume ao seguinte:
Dentre os membros do Instituto Histórico Brasileiro, que em 1872 tiveram oportunidade de conhecer o desenho da Inscrição de Pouso Alto, encontrava-se o Dr. Ladislau Netto, cuja opinião era a de que se tratava de um texto fenício ou hebraico, e por isso logo se empenharia no estudo dessas duas línguas. Incapacitado de decifrar a inscrição sugere que a cópia do petróglifo fosse mostrada ao Imperador D. Pedro II, homem reconhecidamente voltado para a ciência, conhecedor de Árabe e do Hebraico e amigo de intelectuais europeus e de autoridades em epigrafia semita. Na ocasião o nome do sábio francês Ernesto Renan foi lembrado. Este, líder, como se sabe, do Establishment cultural de sua época e considerado a maior autoridade européia em epigrafia Cananéia, além de presunçoso também era desprovido de flexibilidade para admitir outro critério que não fosse o seu para definir valor e autenticidade nos documentos por ele estudados. Conhecendo a notoriedade de sua inflexibilidade e querendo da mesma prevenir-se, por temor de que Renan se lhe antecipasse na divulgação do achado de Pouso Alto, Ladislau Netto convenceu ao Imperador de que não lhe fosse enviado para avaliação o texto completo, mas que o fizesse em curtas seleções, o que possivelmente pode ter sido desagradável ao sábio. Ressentido com esse comportamento por parte de Ladislau Netto, Renan tratou de informar os seus correspondentes brasileiros que, antes que alguém julgasse um texto que ele não vira ainda, estava certo de que se tratava de uma falsificação.
Gordon interpreta esse episódio e dele tira a conclusão de que, estando então o Brasil na periferia da cultura da Europa Ocidental, ninguém aqui possuía conhecimento para enfrentar Renan, o líder de assuntos culturais tais como inscrições semíticas. D. Pedro II, mesmo com toda a sua erudição, era apenas um diletante em assunto que exigia apurada especialização. Vencido por Renan retirou seu apoio a Ladislau. Este, por levar o texto tão a sério, já havia conseguido traduzir da inscrição o suficiente para saber que a mesma continha o relato de uma travessia de Ezion-Geber para o Brasil no século VI antes da Era Cristã.
O texto de Pouso Alto, lido por Cyro Gordon, é o seguinte:
- “Somos filhos de Canaã, de Sidon, a cidade do rei. O comércio nos trouxe a esta distante praia, uma terra de montanhas. Sacrificamos um jovem aos deuses e deusas exaltados no ano 19 de Hirã, nosso poderoso rei. Embarcamos em Ezion-Geber, no Mar Vermelho, e viajamos com 10 navios. Permanecemos no mar juntos por dois anos, em volta da terra de Ham (África), mas fomos separados por uma tempestade e nos afastamos de nossos companheiros e assim aportamos aqui, 12 homens e 3 mulheres. Numa nova praia, que eu, o almirante, controlo. Mas auspiciosamente possam os exaltados deuses e deusas intercederem em nosso favor”.
- “Em 1896, refere Moacir C. Lopes em sua apresentação do livro de Ludwig Schwennhagen, aqui já citado, que foi publicado em Manaus um tratado do historiador Henrique Onfroy de Thoron, que pretendeu interpretar as misteriosas viagens do rei Salomão. Thoron sabia latim, grego e hebraico e conhecia também as línguas tupi e quíchua. Da bíblia hebraica ele interpretou, palavra por palavra, que a narração do I Livro dos Reis sobre a construção e viagem da frota dos judeus, junta com a frota dos fenícios, do rei Hirã da cidade de Tiro, então capital da Fenícia, referem-se ao rio Amazonas, para organizarem a procura de ouro e pedras preciosas, estabelecendo colônias naquele local e ensinando aos indígenas a mineração e lavagem de ouro pelo sistema dos egípcios, conforme descrição que nos deixou Diodoro, minuciosamente, nos capítulos 11 e 12 do 3º tomo de sua História Universa”l.
Em seu estudo sobre os elos entre o Velho Mundo e a Antiga América, Cyro Gordon, que autenticou a inscrição de Pouso Alto, autentica também um petróglifo na Geórgia comprovando que povos viajantes minoanos ali se estabeleceram em 1.500 a.C.
Ainda mais surpreendente é a presença de múmias judaicas em Bat Creek – Tennessee – EE.UU, e também de moedas do líder rebelde judeu Bar Kokhba, a.D., encontradas em Louisiville, Clay City e Hopkinsville – Kentucky, que comprovam que os refugiados da última e desastrosa insurreição judaica contra Roma, de algum modo atravessaram o Atlântico em grande número, instalando-se na América.
Na opinião de Gordon, Colombo, não chegou a descobrir a América: ele simplesmente usou mapas.
Não foi em vão que Ludwig Schwennhagen tento se empenhou em sua pesquisa sobre os Fenícios em Touros – RN, em 1100 a.C., assunto a que já nos reportamos e ao qual agora voltamos com mais base ainda mais sólida.
Refere-se Jorge Luis Borges, em seu livro O Fazedor, a um velho soldado do rei, que cansado de sua terra de Espanha procura consolo nas vastas geografias de Ariosto e, em mansa zombaria de si mesmo, idealiza um personagem crédulo que, perturbado pela leitura de maravilhas, deu de buscar encantamentos e proezas em lugares prosaicos que se chamavam Montiel ou El Toboso.” Desse artifício ficcional vem a nascer D. Quixote, a caricatura do caveleiro andante cuja saga aventureira e combativa desperta riso e paixão, resistindo, contra todas as possibilidades, à passagem dos séculos.
D. Quixote encerra seus dias em sua aldeia natal, por volta de 1614, antecipado-se à morte de Miguel Cervantes, o seu criador, e levando Jorge Luiz Borges, escritor do século XX, a deduzir que, “para ambos, o sonhador e o sonhado, a trama das aventuras de D. Quixote significa a oposição entre dois mundos: o mundo irreal dos livros de cavalaria e o mundo monótono e real do século XVII”.
Valho-me do encantamento e da perplexidade ensejada pela tragicômica trajetória do Quixote, ir buscar o porquê dos felizes resultados literários de utopias como a de Cervantes e da que consagrou o inglês Thomas Moore, produtos do século de Cervantes. Ambos conceberem, sem dúvida, primorosas quimeras. O primeiro expondo os ideais impossíveis do cavaleiro andante do Medievo, o segundo, propondo ingenuamente um governo ideal e que se especializa em oferecer oportunidades iguais para todos em um mundo de desproporções sócias e econômicas só comparáveis às dos países terceiro-mundistas e presos à esfera de influência das nações ditas industrializadas.
Como se ver, não é por acaso que, tanto Cervantes quanto Moore, encheram de gratidão e também de esperança a alma de uma Europa que não achava correto nem estava habituada de zombar de si mesma, e que, embora expondo a si mesma a chaga social da injustiça da pobreza, já não ignorava a possibilidade dos avanços com os quais o mundo real acreditava vencer as próprias contradições, caso a imaginação fosse colocada a serviço de causas que, embora difíceis de ser alcançadas, eram, contudo, realizáveis.
Isto é o que comprova a mentalidade renascentista que resulta nas grandes navegações envolvendo príncipes e reis, banqueiros e armadores, negociantes e marinheiros. John Donne, poeta inglês nascido em 1572 e falecido em 1631, testemunha das transformações iniciadas em fins do século XV e no decorrer dos séculos XVI e XVII, parece definir a questão que vem justificar as implicações do expansionismo sobre o mundo com a frase simplesmente emblemática se não fora profética: “Nenhum homem é uma ilha isolada: todo homem é parte de um continente”.
E isso nos ajuda a compreender que todas as coisas práticas nascem de um sonho, mesmo se esse sonho for mera zombaria. Afinal, queiramos ou não, somos seres utópicos vivenciando a materialização das transformações pelas quais tem passado o mundo. Na maior parte das vezes, entretanto, as mutações tendem a se processar em menos velocidade que as nossas necessidades e desejos. Por isso nunca estamos, como, aliás, jamais estivemos, satisfeitos com o comportamento da Sociedade, da Política, da Economia, da História. Muito menos com a ordem vigente das coisas, que nos parece virtual. Insatisfeitos, sim, com o nosso desejo de substituir o sonho pela realidade, porque sabemos que nos vamos tornar ainda mais amargos e infelizes. Mas “a imaginação é mais importante do que o conhecimento”, e por isso fomos capazes de aprender que o tempo e o espaço são grandezas inter-relativas, não podem ser separadas, pois todas as coisas têm que se ajustar ao modelo primordial, ao genoma do universo.
Em 1928 o historiador e filólogo austríaco, Ludwig Schwennhagen, afirmou numa série de artigos e também num livro sobre a Pré-História Brasileira, intitulado Antiga História do Brasil.

MITO OU REALIDADE?
Nilson Patriota

“Toda expressão de religião no passado foi sintonizada com a vi-
são intelectual do tempo e lugar em que cada expressão determinada foi formulada. A essência subjacente da religião, porém é indubitavelmente tão constante quanto a essência da própria natureza humana. De fato, a religião é um traço intrínseco e distintivo da natureza humana. É a resposta necessária dada pelo ser humano ao desafio do mistério apresentado pelos fenômenos que encontra, em virtude de sua faculdade de percepção consciente, humana, ímpar.”
(Toynbee; A Humanidade e a Mãe-Terra).
Poucas coisas têm o poder de nos tornar felizes como a faculdade de que fomos dotados de criar novos mitos. Não importa quanto fantasioso pareça aos demais o nosso pensamento, quanto arbitrário e cruel seja o nosso desejo. Com o primeiro ser pensante, surge o primeiro mito. Pusemos obviamente no mundo o primitivo Deus. É insuspeito o fato de que o Homo sapiens continua evoluindo na especialização do Homo religiosus, do qual foi em sua origem o criador. Os mitos e deuses eram idealizados com múltiplas aparências. De início representaram crocodilos, chacais e “bezerros de ouro”, mas, com o passar do tempo, adquiriram morfologias mais complexas e aproximadas dos ideais e aspectos dos homens, assumindo, com os gregos, a nossa semelhança, conquanto com os israelitas tenham hajam se concentrado em um único ser: Jeová ou Javé.
Ao passo que nos civilizamos e já não dependemos da coleta e da caça, nosso deus se embuça no universo e repousa também dentro de nós, Conquanto nos ocupemos na execução de obras e no aperfeiçoamento de altos padrões de tecnologia, continuamos a conduzir conosco a capacidade crítica de zombar, até mesmo das nossas próprias limitações. O que não nos impede de transformarmo-nos em árbitros dos outros seres humanos e também dos incontáveis espécimes animais, os quais manipulamos ao sabor dos nossos interesses, que nunca coincidem com os deles.
No passado, as primitivas fés exprimiam a perplexidade e o mistério do Universo, conforme a interpretação do componente essencial da experiência de um único indivíduo ou da sabedoria acumulada pela coletividade. Havia em nossa volta um mundo ameaçador. E, em face disso, o homem, obra suprema da Criação, não estava isento da fúria e dos horrores da Natureza que era o veículo através do qual o Criador comunicava-se com suas criaturas.
Os mitos, as utopias, podiam ser benéficos ou resultavam em castigos e penas. Grandes foram sempre os desgostos e frustrações dos homens. Estes, de comportamento errático ou variável, pagavam caro se não correspondiam aos desejos divinos. No passado, quando havia fartura de deuses, muitos deles eram substituídos quando por isso ou aquilo caíam em desuso. Logo eram substituídos por outros. Mudar de Deus não era um fato traumático, pois indicava que havíamos conservado intacta ligação com a esfera divina sem perder a capacidade de decidir, resguardando assim, convenientemente, a garantia de que gozávamos da proteção de um ser superior, ao qual estávamos ligados desde sempre, e ao qual devotávamos respeito, temor, reverência. Se nosso sangue nos ligava à elite política dominante, gozávamos do privilégio da descendência divina. Como os faraós do Egito e os patriarcas de Israel, como os brâmanes hindus e os sacerdotes fenícios de Baal.
O fascínio divino é tamanho, que homem permaneceu religioso e sonhador até mesmo quando o seu ideal chama-se Nirvana e sua religião é isenta de deus. O budismo foi sempre uma religião atéia. Seus ensinamentos apontam para o aperfeiçoamento moral.
Os visionários existem. Podem ser Ludwig Schwennhagen ou Lenine Pinto Barros. Não importando o erro ou o acerto dos fatos em que se inspiram, continuam fiéis às teses que abraçarem e defendem. Ambos podem ser enquadrados no plano ficcional de Thomas Moore e Miguel de Cervantes, porém ninguém pode afirmar que não estão certos. Os dois partiram da premissa de que a História é bem mais complexa e diferente da que tem sido exaustivamente contada. E até que se prove o contrário, a realidade de ambos continuará válida. Mensageiros das verdades que expressam, não podem ser negados, embora não estejam isentos de ser contestados. Quem tiver argumentos capazes de refuta-los que apareça, porque agora se lhes vem aliar uma poderosa caneta, a do Dr. Ciro H. Gordon, reconhecido internacionalmente como autoridade em antropologia e especialista em línguas semitas da Antigüidade.
Gordon, em sua obra Before Colombus (Antes de Colombo), ainda não traduzidas para o português, faz a seguinte afirmativa:
Em primeiro lugar analisemos a verdade de Schwennhagen. Por mais estranha que este historiador nos pareça, nada nos autoriza a concordar com os que o detrataram. Certamente ele não é o visionário visto por C. Studart Filho em impiedoso artigo publicado no tomo XLII da Revista Trimestral do Instituto Histórico do Ceará, em 1928. Studart, por razões que desconheço, pretendeu levar de água abaixo as teorias do austríaco, todas elas enfeixadas no livro Antiga História do Brasil, que conheço e respeito como obra de profunda pesquisa, que somente a má fé ou o desconhecimento da História Universal e da Pré-História Brasileira podem invalidar de forma assaz impertinente e grosseira. Não podemos nos dar ao desplante de zombar de conceitos emitidos a partir de estudos e afirmações inspiradas nos estudos de autoridades como Diodoro da Sicília, historiador grego nascido em Agrigento e que viveu em Roma ao tempo de Augusto e de Cícero, e Ciro H. Gordon, reconhecido mundialmente por sua atuação no campo da Antropologia e da História, que, na atualidade, vem mudando os conceitos sobre povos marinheiros, como por exemplo os Fenícios, que foram “elos entre o velho mundo e a antiga América”, conforme vemos em seus abrangentes estudos intitulados Before Colombus, que encerram marcantes conclusões e novas postulações para que entendamos o que pode ter ocorrido em nossa Pré-História. Em algum ponto de sua obra, o professor Gordon afirma que no ano de 539 a.C., ocorreu um fato decisivo na História. Ciro o Grande da Pérsia devastou o Novo Império Babilônico e adquiriu o controle da Ásia Ocidental até às praias do Mediterrâneo. As cidades fenícias tiveram que fazer um acordo com ele e harmonizar seus interesses pessoais com os do novo Império Acaemiano. O Mediterrâneo, todavia, ficou dividido entre duas esferas de poder. Os Cartagineses controlavam o Mediterrâneo Ocidental e os Acaeminenses o Mediterrâneo Oriental. Assim, os Fenícios do Oriente, como membros da Ordem Acaemênia, se viram obrigados a penetrar no campo dos rivais e inimigos de Cartago. Isto obrigou Cartago a manter os Fenícios orientais longe do Mediterrâneo Ocidental e a bloquear-lhes o acesso para o Atlântico. Os Fenícios de Tiro e Sidon souberam como enfrentar a situação, pois haviam reaberto a rota do Mar Vermelho para o Atlântico, cerca de 600 anos a.C., preservando assim a estratégica importância do porto de Ezion-geber, que se situava na atual Jezirat Farawn ou Ilha do Faraó, a menos de trezentos metros da costa do Sinai.
Para Gordon, povos marinheiros, como os Fenícios, estiveram em constante contato com a América e a travessia feita por eles no Atlântico não foi provavelmente acidental, como a descoberta do português Pedro Álvares Cabral, que foi soprado através do Atlântico, da África para o Brasil, em 1500 a.D., contrária ao seu plano de velejar em torno do Cabo da Boa Esperança para a Índia.
Sobre Lenine Pinto, autor da Reinvenção do Redescobrimento, em desacordo com os dogmas da historiografia oficial, nada o impede de ter a sua teoria a que não podemos contrapor sem um profundo conhecimento dos fatos em que ele se baseou para concebe-la. Muito menos nos é dado o direito de menospreza-la pelo fato de contrariar o que antigos historiadores estabeleceram como a verdade.
E se a verdade deles for um simulacro? Lembremos que a História é senhora de muitas faces. Algumas delas ocultas permanecem.
Que deseja Ludwig Schwennhagen?
Defender a teoria em que acredita que antes, muito antes de por aqui passarem as expedições de Alonso de Ojeda (com Juan de la Cosa e Américo Vespúcio), Paralonso Niño, Vicente Yáñes Pinzón, Diego de Lepe, Bartolomeu Dias, em sua busca pela “volta do mar”, Vasco da Gama, procurando o país do cravo e da canela, Colombo, tentando chegar à Índia e descobrir a América, Duarte Pacheco Pereira, querendo encontrar “a parte ocidental da Terra”, Pedro Álvares Cabral, ao se perde em meio a correntes e calmarias, quando objetivava as especiarias indianas, os fenícios deram às nossas costas e descobriram e colonizaram o Brasil, por sinal ainda sem nome.
Segundo se consegue entender em suas entrelinhas, o historiador austríaco parece suspeitar de que os fenícios chegaram e logo tiveram a impressão de que haviam por acaso encontrado a pátria do ouro e do pau-de-tinta, madeira com que se fabricava a cor púrpura, a preferida pela realeza semítica e faraônica.
Com anos vividos no norte do Brasil, principalmente no Piauí, onde se dedicou ao estudo da nossa Pré-História, Schwennhagen defende, com a tese polêmica, antes que audaciosa, que os fenícios foram os primeiros colonizadores do nosso território, pois 2500 anos antes de Pedro Álvares Cabral, o descobridor da Terra de Santa Cruz para o rei D. Manuel, de Portugal, aqui aportaram e nos colonizaram.
Esta hipótese, no mínimo intrigante, foi por ele explanada em seu livro História Antiga do Brasil, do qual possuo um tomo da 2ª edição da Editora Cátedra, Rio de Janeiro, 1970.
A descoberta teria sido casual, ele esclarece. Ocorrera, provavelmente, por volta do ano 1100 a.C., e teria acontecido em conseqüência da expansão que a Fenícia empreendiam ao Ocidente com o objetivo de obter bastante ouro em troca das variadas mercadorias que traziam para intercambiar negócios com as populações nativas.
Por sinal, reforça Schwennhagen, os fenícios deixaram visíveis pegadas no Brasil, pois fundaram algumas cidades denominadas Tyro, Turo ou Tur.
A primeira delas, no Rio Grande do Norte, a que chamaram Turo. Atualmente Touros, sede do município de idêntico nome. Uma outra Turo na Bahia, conhecida pelo nome de Torre, e uma terceira cidade no Maranhão, a que deram o nome de Tutóia, topônimo formado pela junção de Tur – capital do opulento império semítico por eles conquistado na Antigüidade (onde hoje se encontram a Síria e parte do Líbano -, e Tróia – o heróico baluarte teucro que teria sido destruído pelos exércitos gregos de Aquiles e Odisseu) Parentes e aliados dos troianos, os fenícios, o que os levou aos mesmos se aliarem por ocasião do célebre conflito, por sinal decantado, com incomparável maestria, por Homero, vate da Grécia clássica e autor da Odisséia e da Ilíade.
Segundo o citado historiador, os fenícios foram os mais competentes navegantes da Antigüidade.
Convém que examinemos, de forma sucinta, em que o ilustre Schwennhagen se baseia para tirar conclusões tão exatas e com elas construir as peças com que armam o arcabouço de sua inusitada e, no mínimo, ousada teoria.
Mas tal teoria, que aos menos avisados pode parecer tão-só imaginária, foi construída em sua totalidade de conforme com os dados por ele colhidos em autores da Antigüidade e de acordo com a cronologia histórica.
Filólogo, etnólogo, pesquisador, historiador, arqueólogo, Ludwig Schewnnhagen pode ser considerado um visionário fanático, mas é principalmente um homem incansável na ardorosa realização de seu trabalho. Aferrado à pesquisa, como a ostra ao rochedo, estudou com minúcias de detalhes o assunto a que se entregou com intimidade que lhe permitia identificar todos os fatos e questões que da mesma se aproximavam por comparação ou meras elucubrações.
Não foi à toa que se dedicou a desvendar papiros, tabuinhas bilíngües, estelas de escrituras várias e uma imensidade de petróglifos. Tal era seu empenho que, de uma forma ou de outra, todo esse material acaba colhido por suas ávidas mãos. Muitos deles, afirmam os defensores de seus estudos, sobras dos salvados do formidável incêndio da Biblioteca de Alexandria, no Egito helenizado.
Tal o seu empenho em encontrar o fio da meada de sua suspeitada teoria, que desde moço debruçou-se sobre autores e documentos através de dias prolongados e noites indormidas. Enquanto sua geração pegava em armas, procurava riqueza e ansiava por conquistar boas posições, ele buscava apenas explicação para o que, afinal, havia nele despertado a suspeita de que os fenícios, vindos da Ásia Menor, teriam chegando ao Brasil, aonde logo se entregaram à extração de ouro e de outros metais preciosos tão caros aos seus negócios com outros povos, sobretudo os egípcios. Esta teria sido a forma por eles encontrada para providenciar as encomendas dos egípcios, antigos e bons fregueses a que não poderiam faltar.
Para tirar a limpo suas suspeitas, Schwennhagen passou a dedicar a maior parte de seu tempo a estudos aprofundados da História. E estes passaram a exigir dele nada menos que um regime de tempo integral. Por isso seu trabalho visando à própria subsistência se resumiu, na prática, apenas ao necessário. E em sendo assim sua vida tornou-se frugal e ascética. Alheio a qualquer outro valor que não fosse a cultura, nada mais lhe interessava. Decidira voltar-se com exclusividade para a decifração dos segredos ocultos nos cuneiformes, nos hieróglifos, dos textos vazados em grego arcaico, em latim clássico, em hebraico antigo e em sânscrito.
Dizem que não se detinha diante de um registro em língua morta ou em desuso. Para ele os tesouros históricos se ocultavam sob a pátina que recobria símbolos e traços de procedência vária e que continuavam indecifrados.
Utilizando os parcos recursos pecuniários a seu alcance, procurou se aprofundar nas fontes históricas da Antigüidade greco-romana, e um pouco nos mistérios das civilizações babilônica, persa e egípcia. Satisfeito com o material examinado, migrou para o Ocidente onde, no Brasil, encontrou um campo promissor para seus estudos de História e Paleontologia.
Um dia, sobraçando uma pilha de tomos arcaicos e documentos reveladores de esquecidas sagas da aventura humana, desceu de um cargueiro num cais do Piauí. Além disso, levava consigo o firme propósito de completar a obra há anos iniciada, e cujo enredo teria se passado ao longo de um período da Pré-História brasileira, pouco pesquisada e até então pouco sabida.
Satisfeito com a tentativa de entender os desgastados petróglifos encontrados, ele admitiu que era chagada a hora de partilhar com outros estudiosos do tema o saber que o havia empolgado por uma boa parte de sua existência. Então, tendo em vista a conclusão de sua tese, partiu para a pesquisa de campo, na qual poderia surgir a oportunidade de juntar as peças do intrigante quebra-cabeça que desejava montar. Através do estudo de alguns naturalistas europeus, que aqui estiveram classificando fauna e flora, classificando etnias e anotando costumes e usos tribais, tomou conhecimento de um alentado número de inscrições rupestres, cujo significado não pôde ser desvendado em sua totalidade pelos especialistas que realizaram as tentativas de interpreta-las.
Diante da vastidão do país, o gigantismo de seus rios e a exuberância de suas florestas, reconheceu que não poderia visitar todas as províncias nem tampouco se demorar naquelas escolhidas para estudo. Na ânsia de conhecer um pouco do que havia no país, recorreu à obra dos principais viajantes e cientistas que se interessaram em descrever os vários aspectos da flora, da fauna silvestre, da terra e da gente que passavam a ser tema permanente de seus estudos. Leu e analisou autores como Hans Staden, Agassiz, Dorffel, Spix e Martius, Honorato Costa, Cunha Morais, Petercipe, Hensel, Tschudi, Pöppig, De Sousa, Newvied, Rgendas, Mouchez, Häusser, Hörmayer, Wappaüs, Hübner e Humboldt, e diversos outros autores alemães, franceses, ingleses e portugueses, tendo também acesso à obra dos nossos naturalistas, que não sabemos na verdade se os leu integralmente.
Para reforço de sua tese passou a registrar o que de positivo ia sendo encontrado em sítios do Piauí e Maranhão. Lecionava, já então, grego e latim no Curso de Humanidades de colégios públicos de Teresina enquanto fazia estudos comparativos de História, percorrendo as obras de Apolônio Frot e Bernardo de Azevedo. Também consultava novas fontes.
Durante suas pesquisas de campo, teve sua atenção voltada para o material existente nos paredões graníticos e no interior das cavernas em que desenhos e signos foram deixados por homens da Pré-História. Seriam simples registros feitos de passagem por caçadores ou a transmissão de mensagens dirigidas aos homens que, de futuro, iriam ali repousar ou se estabelecer? Havia, em abundância e por toda parte, símbolos e sinais de natureza vária.
Entusiasmado com o que ia encontrando, penetrou mais profundamente pelo sertão e, sistematicamente, desbravou os sítios que lhe eram indicados pelo povo. Suas andanças levaram-no a quase todo o país. Na tentativa de encontrar pegadas fenícias ou indícios que pudessem fortalecer seu tema ou teoria, passou a escrever artigos das províncias por onde passava, sem deixar de se corresponder com seus patrícios, que segundo parece, devem ter percebido que suas pesquisas careciam do endosso científico da historiografia oficial. Talvez porque houvesse no norte da Europa, como ainda hoje existe, um sentimento de xenofobia contra certas etnias que, admitidas como viajantes, passam a ser discriminadas ao buscarem o visto de permanência e o trabalho.
Com o estudo de toda uma existência, Ludwig Schwennhagen acabaria sendo notado por alguns dos nossos estudiosos E estes o consideraram o estrangeiro a dar a maior contribuição para o conhecimento da Pré-História Brasileira. Em seus estudos, que não abrangem apenas a colonização fenícia na América, ele chegou definir a origem da etnia tupi, uma questões não de todo resolvida com que os nossos antropólogos se defrontam.
O livro de Schwennhagen, A Antiga História do Brasil, antes de ser uma obra comum, é, ao contrário, um livro empolgante, embora algo fantasioso, mas raro e precioso. Sem se perder em grandes contradições, parece-me enriquecido de instigantes indagações, surpreendentes surpresas e possíveis e conclusões. Para escreve-lo, o autor seguiu um fio que não foi certamente o de Ariádene ao proteger Perseu do labirinto onde vivia o Minotauro, mas o que segue o curso da narrativa de Diodoro da Sicília, historiador grego de Agrigento, habitante de Roma na época de Cícero e Júlio César, com os quais manteve relações, sendo deles um importante assessor em assuntos de História.
A tese de Schwennhagen surge a partir da leitura feita por ele do que restou da História Universal de Diodoro, escrita em 45 tomos, dos quais só a terça parte chegou até os nossos dias.
Prega Ingenieros que, “quando o ignorante se julga igual ao estudioso, o velhaco ao apóstolo, o falador ao eloqüente e o mau ao digno, a escola do mérito desaparece numa vergonhosa nivelação de vilania e mediocridade”.
Jorge Luis Borges, refere-se, em O Fazedor, a um velho soldado do rei que, “cansado de sua terra da Espanha” (...) “procurou consolo nas vastas geografias de Ariosto”. (...) “Em mansa zombaria de si mesmo, idealizou um homem crédulo que, perturbado pela leitura de maravilhas, deu de buscar proezas e encantamentos em lugares prosaicos que se chamavam El Toboso ou Montiel”. Desse artifício ficcional nasce Dom Quixote, que morre em sua aldeia natal por volta de 1614, a ele sobrevivendo Miguel de Cervantes, seu criador. Borges adianta que, “para os dois, para o sonhador e o sonhado, toda essa trama foi a oposição de dois mundos: o mundo irreal dos livros de cavalaria, o mundo cotidiano e comum do século XVII”.
Valho-me da perplexidade que tal fato enseja para entender a utopia que consagrou o inglês Thomas Moore, autor obra que imagina e concebe a quimera ou a fantasia de um governo ideal, absolutamente irrealizável, e que, no entanto, encheu de felicidade e gratidão a alma cotidiana e comum da Europa do mesmo século XVII. O sonho de Moore ignorava todas as vastas possibilidades que o mundo real pode oferecer quando posta em ação nossa criatividade.
Em Tordesilhas, após interminável contencioso, as partes chegaram a um consenso. O aval do Papa Alexandre VI consolidou então o direito de Castela e de Portugal sobre o mundo que estava sendo descoberto ou a descobrir no Ocidente. A Corte portuguesa, já conhecedora, talvez, da extensão da costa ocidental do pau-brasil, achou prudente e necessário que se procedesse à “legalização” da nova terra através do instrumento da posse, antes que a ambição dos parceiros espanhóis, dela informados, opusesse obstáculo a sua legalização. Mas havia também a aguda ambição dos concorrentes europeus que, sabedores do fato, poderia se inflamar.
Concluída a travessia atlântica diante do litoral de um sítio chamado Ubranduba, atualmente conhecido como Praia dos Marcos, por onde pilotos como Juan de la Cosa, Lepe, Solis, Ojeda, Pizón e o próprio Vespúcio já haviam passado, a flotilha arriou ferros a meia légua da praia, avistando a terra verdejante. Então o comandante da expedição – que até hoje não se sabe ao certo quem foi, se Gaspar de Lemos ou se um daqueles outros pilotos iniciados na “carreira das Índias”, tais como André Gonçalves e Fernando de Noronha – chantou um padrão colonial de posse contendo “armas e quinas” dos reis de Portugal, legalizando a posse.
Sobre esse fato, sigilosamente realizado, fez-se silêncio. A razão: Além de temer a mal disfarçada desconfiança de Castela sobre qualquer descoberta portuguesa, Dom Manuel ainda não estava inteiramente informado, pairando dúvidas certamente sobre a legitimidade de seu direito àquela terra achada no ocidente. Por outro lado, era de seu propósito evitar a curiosidade das potências emergentes que, atrasadas quanto ao processo dos descobrimentos, vinham modernizando suas frotas no intuito de concorrer às vantagens conquistadas pelos dois países ibéricos nas grandemente vantajosas navegações transcontinentais.
E tão bem guardado foi o “segredo” da expedição de reconhecimento de 1501, que o que sabemos a seu respeito é o que Américo Vespúcio, um dos que nela participaram, narrou, com astuta e calculada imperfeição, em suas quatro cartas vindas a público em Florência a partir de 1506.
Três dessas cartas foram dirigidas ao banqueiro florentino Lorenzo di Piefrancesco de’ Médici, e uma a Píer Soderini, Gonfalonero, o mesmo que governante, em Florença, que já então era importante centro financeiro e cultural da Itália.
Divulgado ou vazado o “segredo”, a “Terra Brasilis” passa a ser visitada muito mais por contrabandistas e piratas de multifária procedência do que por seus descobridores, que se achavam empenhados no comércio do Oriente. E, somente depois que a aventura oriental deu mostra de inconsistência e de fracasso, os portugueses passam a demonstrar interesse pela terra que, descoberta, fora esquecida como se nada valesse. É que a mania do ouro e das pedras preciosas dominava, naquele tempo mais que hoje, o pensamento europeu. Desde o século XIII, a mentalidade daquela gente ávida se achava imbuída pela idéia do “Eldorado” – um lendário e fascinante paraíso de preciosidades e riquezas. E já que o mítico “Eldorado” de início não fora detectado em solo brasileiro, eles abandonaram o país ao contrabando, ao saque.
Mas o que é que tem a ver História de Portugal e das nações da Europa renascentista com a modesta cidade de Touros? – sinto que muitos estão a perguntar. Eu respondo: tudo ou nada, dependendo da óptica com que os fatos sejam examinados.
O litoral de Touros, além de abrigar o marco colonial (atualmente na Fortaleza dos Reis Magos, em Natal), que é a prova de que Portugal tomou posse do Brasil no litoral tourense, abriga um outro detalhe de grande importância: o litoral e a cidade de Touros localizam-se no cotovelo continental da América do Sul, onde a corrente Subequatorial, partindo do rebojo africano do Golfo da Guiné, e correndo de leste para oeste, próxima ao Equador, vem encontrar a ogiva continental da Ponta do Calcanhar e bifurcar-se em dois sub-ramos. Para o sul, ate à altura da Bahia, formando a Corrente do Brasil, e para o norte, até os extremos amazônicos, originando a Corrente das Guianas. É também o ponto mais próximo do continente africano.
Segundo os estudiosos do assunto e conforme historiadores do porte de Câmara Cascudo e Olavo de Medeiros Filho, devido às conseqüências das forças telúricas e magnéticas originadas pela Corrente Subequatorial, a região de Touro foi sempre considerada diferente e “reconhecida como retemperadora das energias humanas”. Na direção do litoral tourense as correntes conduzem embarcações e outros objetos. A imagem do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, por exemplo, foi encontrada, final do século XVIII, no interior de uma urna de madeira, que aqui chegou trazida pelas correntes. Estas, investindo sobre a costa, fazem-na avançar sempre mais para o interior do continente.
Em 1927, um sábio austríaco, Ludwig Schwennahagen, um dos pioneiros da arqueologia brasileira, filólogo e decifrador de línguas como o fenício arcaico e o grego antigo, que atualmente se acha fora de moda, esquecido ou mesmo hostilizado, esteve pesquisando em Touros e fez algumas descobertas e cometendo outros tantos enganos. Segundo ele, o topônimo Touros teria se originado do fenício Tyros, coisa esta com que não concordamos, não porque queiramos concorrer com um filólogo, mas porque conhecemos os fatos aos quais não teve acesso por vários motivos, um deles ser estrangeiro. O topônimo Touros decorre do étimo “Suaçu-Guaçú”, que era como os índios denominavam a Itacoatiara do “Veado Grande” , próxima à boca da barra do rio “Uguaçu”, atualmente “Maceió”. Essa Itacoatiara, em forma de falésia, praticamente fecha, ao leste, a enseada formada a oeste pelo avanço da Ponta do Calcanhar, e que se demora diante da cidade de Touros.
Os indígenas, como sabemos, chamavam de Itacoatiara a toda pedra com inscrições, desenhos e formatos de objetos e animais. A de Touros, antigamente teve formato de cabeça taurina. E mesmo depois do terremoto de 10 de janeiro de 1854 (conforme se acha registrado no livro do geógrafo Alfredo de Carvalho, “Estatística dos Terremotos Brasileiros”), que a destruiu, conservou, no que dela resta, seu antigo nome. Uma vez que os nossos índios desconheciam o gado vacum, mas tinham como caça o veado, compararam à Itacoatiara à cabeça de um veado e a denominaram de “Suaçú-Guaçu”, palavra que no tupi de então significava “Veado Grande”.
Ao chegar ao litoral tourense, os primeiros aventureiros, contrabandistas e negociantes de pau-de-tinta e ervas do sertão ficaram impressionados com a aparência da pedra e a chamaram então de “Touro Grande”. Conforme é sabido, até a última metade do século XVII a língua conhecida e falada no Brasil era mesmo o tupi, que em seguida foi consolidado pelo nenhengatu dos padres catequistas e depois calculadamente extinto com a eliminação sumária de nossos índios.
O porto de Touros foi conhecido desde a época dos primeiros contatos do europeu aventureiro com os indígenas da região, que pertenciam à nação tupi e a muitas outras provenientes do interior, sobretudo das tribos Tarairius ou Cariris.
Seu primeiro concessionário foi o militar português José do Porto, que o recebeu, em 1609, como sesmaria, das mãos do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque. Como a sesmaria do Porto não progrediu, em 1614 voltou ao domínio da Coroa portuguesa, e jazeu esquecida. Em 1666, enriquecido pelo fabrico e comércio do açúcar na Paraíba e Pernambuco, o ex-governador de Angola, João Fernandes Vieira, requereu à Coroa sua concessão. Com a sesmaria de João Fernandes Vieira surgem os primeiros vestígios de povoamento da orla marítima desta região. Mas a chamada “guerra dos bárbaros”, que uniu as tribos indígenas do litoral e do semi-árido contra a má administração portuguesa na capitania, obrigou Vieira a abandonar seu projeto. Em 1681 a sesmaria do Porto do Touro passou às mãos do desembargador Cristóvão Soares Reimão, que não teve sucesso e foi substituído por Domingos da Silva Valcácer. Em 1706 pertencia a Domingos Carvalho da Siulveira, e, no na última década do século XVIII, a Manuel Dias de Assumpção e sua mulher Joanna Tavares da Costa.
Por essa época o povoamento estava praticamente implantado em toda a extensão da costa de Touros, atingindo, de forma incipiente, os lugarejos de Jacaré, Morrinhos, Galos, Galinhos e Guamaré, nas proximidades de Macau. A povoação do Porto do Touro era a mais desenvolvida, contando com 200 fogos e quase seiscentas almas, mas continuava na dependência do município de Estremoz. Através da liderança do juiz de paz Joaquim Xavier Velozo, do termo de Touros, uma campanha foi iniciada com o objetivo de se criar a freguesia de Touros através da divisão da paróquia de Estremoz. Como estímulo, os sesmeiros Manuel Dias e sua mulher doaram o terreno para patrimônio de uma capela a ser construída. Os entendimentos com as autoridades políticas e eclesiásticas se arrastaram por três décadas. Só em 21 de fevereiro de 1832, o Conselho Provincial aprova o projeto de divisão da freguesia de Estremoz, que é confirmada por lei geral de 5 de setembro do mesmo ano.
Com a criação da freguesia, têm início os entendimentos para a criação da municipalidade. E a 11 de abril de 1833 o Conselho Provincial eleva Touros à categoria de vila e sede de município. As condições pecuniárias são péssimas e o município não pode ser implantado. Por isso uma nova lei é votada, a de número 21, de 27 de março de 1835, para corroborar a anterior. Então, com a ajuda financeira do erário provincial, a municipalidade é instalada. Cento e cinco anos depois de se tornar sede municipal, a vila de Touros é agraciada com o título de cidade, através do decreto-lei número 457, de 29 de março de 1938, publicado em obediência ao decreto-lei federal de número 311, de 2 de março do mesmo ano.
Um fato histórico, da maior importância para a História Militar Brasileira, diz respeito à façanha e à saga do cabo-de-guerra pernambucano Luís Barbalho Bezerra durante a Guerra Holandesa. Em 1638, o príncipe de Nassau, governador do Brasil Holandês, ataca a Bahia com a finalidade de consolidar o predomínio da Companhia das Índias Ocidentais no Nordeste do Brasil, onde a produção açucareira atingia seu auge e aguçava ainda mais a cobiça dos invasores de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Forçado pelos portugueses e brasileiros donos de engenhos, o governo de Espanha e Portugal, que se achavam unidos numa única administração desde 1580, expede para a capital da Colônia uma esquadra com 86 vasos de guerra e 11 mil homens, destinada prestar auxilio aos baianos e ao general Bagnuolo, que tinha se deslocado de Pernambuco em defesa da capitania baiana. Ao conjunto da tropa, incorporaram-se Luís Barbalho Bezerra, juntamente com o bandeirante Raposo Tavares, o índio Camarão, o preto Henrique Dias, e muitos outros. A batalha naval que então teve início não favoreceu os luso-espanhóis. Na iminência de ter que fugir com o seu pessoal para as Antilhas, Barbalho preferiu desembarcar em Touros, daqui iniciando uma contramarcha, através de aproximadamente mil e oitocentos quilômetros, em terreno infestado de índios hostis mancomunados com mercenários a serviço dos holandeses. Constantes e renhidas batalhas ocorreram durante toda a extensão da travessia realizada através de matas, areais, tabuleiros e pântanos, mas Barbalho conseguiu voltar à Bahia, onde reiniciou sua luta contra o domínio dos batavos.
E já que nos referimos ao feito militar de Luís Barbalho, não devemos esquecer o que foi executado pelo nosso conterrâneo, Coronel Antonio Florêncio do Lago, consumado herói na Retirada de Laguna, quando da Guerra do Paraguai. Segundo Taunay, que foi seu colega, Antonio Florêncio ao ser encarregado da retirada agiu como os grandes e bravos guerreiros, batendo-se com heróica determinação com o inimigo e trazendo, através de uma região infestada por adversas condições e tropas belicosas, conseguiu, através de centenas de quilômetros, trazer sua gente de volta para casa sem grandes baixas.
Não posso me deter indefinidamente com a narração dos acontecimentos da história de Touros, que por serem tantos, acabariam enfadando. Tudo sobre o assunto está na obra “Touros – uma cidade do Brasil”, carente de uma segunda edição, porquanto praticamente esgotada.
Encerro minhas palavras agradecendo aos presentes que com paciência e atenção me ouviram durante essa pequena saga tourense. Antes de deixar a tribuna, quero faze-lo deixando um traço poético no ar. Há algum tempo escrevi um poema a que dei o título de Mar de Touros. Espero que os agrade.

*Nilson Patriota é membro da Academia Norte-riograndense
de Letra e presidente do Conselho de Cultura do Estado.

  ARQUIVO VIVO PARTE 10 

 


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