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MEMÓRIA
Seu Lucas e a luz da cidade
Por Maria Antonia Teixeira da Costa

Seu Lucas do motor, assim ele é conhecido na cidade de Touros RN, pois foi durante quase vinte anos o responsável pela manutenção dos motores que forneciam a iluminação pública da cidade. Seu verdadeiro nome é Luiz Emídio da Costa. Nasceu em 15 de outubro de 1924 e faleceu em 27 de janeiro de 2007. É filho de Antônia Pereira da Costa e Emídio Francisco da Costa. Morou por muitos anos à rua Cel Antônio Antunes, 23. Casou-se em 1959, com Maria do Céu Teixeira da Costa com a qual teve dez filhos, entre eles, eu que escrevo esta história a partir de seus relatos orais e nossas lembranças.

Nascido e criado em Touros viu o tempo passar e ficar em seus oitenta e dois anos (82) anos de idade vividos. Perdeu seu pai quando tinha aproximadamente 30 anos e passou a cuidar da sua mãe e suas irmãs enquanto seus outros irmãos foram para o Rio de janeiro. Assumiu então a profissão de seu pai e passou a fabricar anzóis de diversos tipos, vendidos aos pescadores do local, bem como na capital do Estado. Além disso, cuidava da luz da cidade e com a chegada dos filhos tornou-se pai aos 35 anos de idade.

Pai no sentido completo que podemos afirmar do que é ser um pai. Ele nos gerou e nos amou de uma maneira extraordinária A sua racionalidade e sensibilidade se aliavam de tal forma que diria, se meu pai tivesse tido oportunidade, seria conhecido hoje como um doutor, um grande cientista, um grande artista. Quantos doutores eu conheço? Inúmeros. Não trocaria os conhecimentos de muitos deles por aqueles que aprendi com meu pai. Valores inestimáveis: a simplicidade, a honestidade, o respeito, o amor.
Ainda criança, em Touros não havia cinema. Lembro-me como se fosse hoje, ele levou-nos para assistir vários filmes, entre eles, “Os brutos também amam”, “A lenda de Tarzan”. Esses dois são os que mais marcaram minha infância. Isso aconteceu no início da década de 1970. Os filmes aconteciam no salão da antiga casa paroquial que ficava na rua da antiga prefeitura, a qual foi demolida.

Fomos muitas vezes, também, assistir ao show de João Redondo, hoje conhecido por Mamulengo. Era uma espécie de divertimento popular onde através de um palco ligeiramente levantado, bonecos dramatizam histórias. Semanalmente, nos finais de semana eram apresentados no antigo Centro Operário Tourense, se não me engano, hoje lá funciona o Fórum de Touros.

Quantos pais não têm tempo para seus filhos? Muitos. A maioria não participa da infância de seus filhos e quando se dão conta, o tempo passou, os filhos tornaram-se homens e mulheres, casaram, foram embora de casa. Com nosso pai não foi assim.
Todos os dias à tardinha ele pegava sua bicicleta e colocava minhas irmãs, Maria Auxiliadora e Maria Alécia no bagageiro e eu ficava dentro de uma cesta que ele colocou na frente da bicicleta e ia passear conosco até à praia. De manhã cedo, nos finais de semana, nos levava para tomarmos banho de mar e dizia para tomarmos três goles de água salgada, que conforme ele dizia era bom para muitas coisas, como para abrir o apetite, para gripe entre outros males.

Eu ainda pequena e ele me ensinava pequenas poesias as quais eu memorizava e recitava-as para os seus conhecidos quando íamos passear. Nessa época eu tinha cinco anos de idade. Durante toda a minha existência ouvi papai contar muitas histórias sobre a cidade de Touros.

Na nossa infância ele nos levava para ouvirmos histórias das pessoas mais velhas. Minha irmã Maria Alécia, está com um projeto de escrever um livro com essas histórias.
Ele era um homem brincalhão, todos conhecem essa sua característica. Além de histórias verídicas, contava-nos piadas bem engraçadas, tinha um humor fantástico. Fazia todos rirem com suas palhaçadas.

Atualmente todos falam em economizar energia, economizar água, pois creiam, em minha infância o nosso pai sempre falava sobre isso, ensinávamos a economizar. Ele dizia que um dia a água e a energia podiam acabar.

Hoje se fala em direitos iguais para homens e mulheres, em nosso cotidiano vivenciamos isso em vários pontos do relacionamento de papai e mamãe. Por exemplo: mamãe trabalhava à tarde, quando ela chegava em casa a janta já estava quase toda pronta; ele lavou muitas fraudas nossas, nos deu mamadeiras, conforme mamãe nos relata. Em nossa adolescência, pudemos observar que ele realizava muitas atividades para ajudar mamãe. Até mesmo quando mamãe ia dar à luz ele ajudava às parteiras, pois muitos dos seus filhos nasceram em casa. Mesmo com uma pessoa que nos ajudava nas tarefas, nosso pai sempre foi aquele homem cuidaoso, amoroso, carinhoso. Às vezes ele era muito duro conosco, mas jamais perdeu a ternura. Além de tudo isso, ele trabalhava e muito, ele cuidava da luz da cidade, através da manutenção dos motores geradores da energia.

Mas, nem sempre a iluminação da cidade foi realizada através da energia gerada pelos motores. Touros foi também iluminado por lampiões através do querosene até 1948. Havia um lampião a querosene no Centro Operário Tourense, onde hoje funciona o Fórum; outro na frente da casa de Izaque, onde é hoje a casa de Dona Salete (situados na rua Cel Antônio Antunes) outro na casa de José Porto, ex-prefeito de Touros nos anos de 1934, na antiga rua do Capim; um na antiga Prefeitura da cidade, denominada de Palácio Porto Filho, a qual foi demolida; havia ainda um lampião em frente a casa de Joça da Mata, situada hoje na rua Pedro II, aonde morou seu Manoel Cândido e sua família.

Em 1948, assume a Prefeitura da cidade de Touros, o vice-prefeito, Severino Rodrigues Santiago, conhecido como Severino Grilo, em virtude do falecimento do então prefeito Arthur Costa e Silva.

Nessa época, Manoel Correia do Nascimento, tio de Lindonor Patriota, era amigo de um tenente, chamado Pitanga, da Base Naval de Natal. Por intermédio desse amigo, seu Manoel trouxe para Touros um velho motor francês de quatro cilindros. Foi com esse motor que Touros passou a ser iluminada e seu Lucas a cuidar da sua manutenção e também da tarefa de acender e apagar as luzes da cidade.

As luzes eram acesas às 18:00 horas e apagadas às 22:00 horas. Para isso, às 21:30 horas ele dava o primeiro sinal, avisando que as luzes seriam apagadas, às 21:55, eram três sinais seguidos e às 22:00, o motor era desligado. Os postes eram de madeira e quando José Américo de Souza Grilo assumiu a prefeitura de Touros, encomendou Postes de f erro e de cimento.

Para ser fiel a história que papai me contou, quem inicialmente tomou conta do motor, em 1948, foi Alípio (não tive o cuidado de pegar o nome completo dos seus ajudantes). Seu Alípio passou três meses e passou o trabalho para Luiz Emídio da Costa.Os outros ajudantes foram: Costinha, Antônio Hermínio, Dedé e Belchior.

Quanto aos motores, foram vários os tipos: o primeiro produzia energia através de gasolina, os outros a óleo diesel com geradores conjugados aos motores. O primeiro motor tinha quatro cilindros; depois que quebrou foi trocado por um HMG de dois cilindros, o terceiro foi um mercedão de seis cilindros e o último foi um VWM de quatro cilindros.

Papai cuidou da luz da cidade, durante vinte anos, que compreende de 1948, até a chegada da energia de Paulo Afonso, em 1968, no governo de Walfredo Gurgel e prefeito da Cidade José Joaquim do Nascimento. Vários acontecimentos aconteceram durante os anos que se passaram, porém deixarei para falar sobre eles posteriormente.
A nossa vivência cotidiana na cidade de Touros foi alterada quando em 1978 mudamos para Natal, pois em Touros não havia 2º grau e mamãe queria que continuássemos a estudar. Papai continuou morando em Touros e sempre que podia nos visitava em Natal. Em nossas férias tudo voltava ao normal: novamente ouvíamos as suas histórias, observávamos o nascer e o pôr-do-sol quase todos os dias, íamos à praia de manhã, de tarde e de noite, almoçávamos peixe fresco com pirão, comíamos abacaxis, chupávamos mangas, tomávamos água de coco. Mas férias não duram o ano todo e tudo voltava ao normal. Em Natal, era a vez de mamãe, íamos à praia nos finais de semana, agora éramos adolescentes, os divertimentos também mudaram.

Hoje tudo mudou, nada dura para sempre, nosso pai partiu. Touros cresceu em alguns aspectos, regrediu em outros e lá ele viveu quase toda a vida, o tempo passou, nós nascemos, nos morremos. Ele viveu sem ganância, sem orgulho e com simplicidade.
Hoje eu e meu filho estamos aprendendo música. Já sabemos ler pequenas partituras, sabemos verificar os compassos e nesse momento pude entender o seu amor pela música. Pude entender a sua sensibilidade e a sua racionalidade. Pois a música é tão matemática, tão racional que jamais pude imaginar. Ao mesmo tempo é de uma sensibilidade enorme que nos faz sonhar. Não posso contar quantas vezes fomos assistir aos ensaios da banda de música da cidade de Touros. Conheci alguns dos maestros que passaram por ela, entre eles o atual, Júnior. Quero registrar nessa história de seu Lucas, a importância da Banda de Música de Touros em sua vida. Regida, atualmente, pelo Maestro Júnior. Ele acompanhou o sepultamento de nosso pai e cantou com seus alunos: “amigos para sempre”. Ao mesmo tempo agradecer por tudo em nome da nossa família, parabenizando o seu trabalho. Inclusive registrar que o nosso sobrinho Emerson é um dos integrantes da Banda e que tocou nesse dia.

Meu avô, pai de meu pai, tocava pratos, meus tios-avôs, também tocavam vários instrumentos. Com a partida de papai estamos querendo retomar a tradição musical da família. Quero nessa história relembrar que há muitos anos, todo dia 30 de dezembro os músicos vão à frente da casa que papai nasceu e morou, tocar em homenagem a festa do padroeiro e a chegada próxima do ano-novo.

Depois de alguns dias do sepultamento do nosso pai, fomos ver os meninos ensaiando. É uma pena que as autoridades não valorizem o trabalho que crianças e adolescentes fazem nesta banda de música. Tanto dinheiro que os órgãos públicos têm para custear projetos educativos, onde crianças e adolescentes poderiam receber uma bolsa de estudo. Aqueles meninos, ali ensaiando, com uma vontade imensa, porém sem um reconhecimento merecido.

Relembrando esses fatos, bate uma grande saudade em meu coração, ao mesmo tempo tenho a certeza que onde o nosso pai estiver com certeza será um espaço iluminado, afinal ele é a luz da cidade.

*Maria Antônia Teixeira da Costa é professora da
Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN)

  ARQUIVO VIVO PARTE 8 

 

 


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