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TRAJETÓRIA
Da rua do Capim em Touros
para o Itamaraty e o mundo

Entrevista // Anna Ruth Dantas em 03/04/2011

Foto: Júnior Santos

No Itamaraty, reduto dos diplomatas brasileiros, a principal família não é de nenhum político ou gestor. Na verdade, entre o corpo de diplomacia nacional está presente uma verdadeira família, com três gerações, e que tem como origem a pequena cidade de Touros, no Rio Grande do Norte. Foi desse município que saiu o jornalista Antônio Patriota, que durante quase 20 anos foi diplomata brasileiro chegando, inclusive, a ser o chefe da Missão da ONU no Caribe e representante da ONU no Haiti. Antonio Patriota, hoje com 94 anos, originou um verdadeiro clã no Palácio Itamaraty. Dos cinco filhos, quatro atuam na diplomacia brasileira: Lúcia Patriota, hoje aposentada, mas que chegou a ser chefe do setor cultural da Embaixada do Brasil em Washington; Guilherme Patriota, hoje atuando na assessoria diplomática da Presidência da República; Izabel Patriota, oficial de chancelaria, e Antônio Patriota, ministro das Relações Exteriores. Além deles, ainda há a neta, Thania Patriota, atuando nos Estados Unidos.

Entre todos, o de destaque hoje é o filho Antonio de Aguiar Patriota, que sucedeu Celso Amorim como ministro. O patriarca Antônio é um entusiasta da família e da carreira diplomática. Confessa que nunca havia pensado em seguir essa trajetória, mas se diz realizado e parte dele palavras de incentivo para quem deseja servir ao Governo brasileiro a partir da diplomacia.“Um dos melhores empregos do mundo é a carreira diplomática do Brasil. Nosso passaporte vermelho é muito bem visto lá fora. Nós temos uma carreira que você tem toda liberdade pode se especializar no que quiser e ao mesmo tempo servir na repartição onde está lotado. Hoje você ingressa basta ter mérito. Seja branco, preto, rico, pobre, tendo mérito você ingressa”, comenta ele.O convidado de hoje do 3 por 4 é um diplomata aposentado, um potiguar acolhedor, um cidadão brasileiro com grandes lições de mundo. Com vocês, o jovem Antonio Patriota, que aos 94 anos mostra alegria de viver e de ensinar.

DETALHES

Antonio Patriota, 94 anos, é potiguar nascido em Touros. A formação inicial desse diplomata aposentado é Jornalismo. Mas foi com o ingresso no Instituto Rio Branco que ele começou a trilhar o que seria sua principal carreira. Começou a carreira servindo como diplomata na Divisão Econômica do Itamaraty no Rio de Janeiro. Passou por diversos consulados como Genebra, San Salvador, Califórnia. Chegou a ser conselheiro na Missão do Brasil à ONU, em Nova Iorque, no período de 1967 a 1969. Aos 55 anos já estava aposentado da carreira de diplomata, mas continuou com o trabalho internacional. Durante seis anos serviu como Chefe de Missão (que tem status de embaixador) da ONU no Caribe.

PERFIL

Sonho: eu gostaria de ter chegado a embaixador do Brasil. O cargo no Caribe era equivalente a embaixador, fiquei durante mais de seis anos como chefe de missão

Em que acredita: boa saúde, esporte, educação

Projeto: hoje já não tenho mais projeto de vida, porque minha vida já está realizada. Tenho 94 anos, mas quero continuar com saúde. Adoro música, leio, escrevo

ENTREVISTA

Teria hoje o senhor uma família de diplomatas? Afinal, é um pai, quatro filhos e uma neta.

Antônio Patriota: Eu nasci em Touros, no Rio Grande do Norte. Saí daqui depois que meu pai morreu. Na época eu tinha 15 anos e fiz a vida no Rio de Janeiro. E depois de diversas empresas privadas onde trabalhei, ingressei na carreira diplomática. Trabalhei em diversos países, duas vezes na Suíça, duas vezes nos Estados Unidos, no Caribe. E os filhos foram nascendo e se educando. Geralmente, aprendendo línguas, Francês, Inglês, Espanhol. Trabalhei na Suíça francesa. E veja que terminou quatro ingressando na carreira diplomática.

Então só uma filha do senhor que não ingressou na carreira diplomática?

Antônio Patriota: Mas essa que não ingressou ela é fabulosa. Tem PHD em Vancouver. Ela tem 25 livros publicados, foi a primeira mulher que ingressou como acadêmica na Academia Brasiliense de Letras.

Como um potiguar chega a uma carreira diplomática?

Antônio Patriota: Eu tenho brincado e digo que tudo isso começou na rua do Capim em Touros, a rua que hoje se chama Ferreira Itajubá. Eu, depois de diversas tentativas em empresas privadas, pensava que era preciso ter curso de Direito para entrar como diplomata. Mas quando me dispus a ingressar na carreira diplomática, vendo que qualquer curso universitário servia eu já tinha o curso de jornalista. Então eu fiz o concurso para o Rio Branco já tardiamente. Fiz no limite da idade, que era 35 anos. Hoje não tem isso, você pode fazer o curso com qualquer idade, é uma garantia da Constituição. Então, ingressei com 35 anos e fiz o primeiro ano e no segundo ano, quando estava para terminar, surgiu concurso direto para provimento imediato na carreira. Eu que era o mais velho da turma não poderia deixar passar, fiz o concurso e passei.

É possível comparar a diplomacia brasileira do início da sua carreira para de hoje?

Antônio Patriota: Quando ingressei já ingressei sobre a égide do mérito do Instituto Rio Branco. No meu tempo a coisa era mais na base de família rica e coisa parecida. Acho até que por tamanho e beleza. Mas ingressei pelo mérito, fiz o concurso. Minha família foi crescendo e eles (os filhos), sem que eu influenciasse diretamente, todos os que quiseram ingressaram na carreira.

Mas a diplomacia brasileira hoje é mais atuante que antigamente?

Antônio Patriota: A diplomacia hoje é muito atuante. Você veja, acho até que o avanço que o Brasil tem dado ultimamente no terreno internacional, a sua presença maior, se deve muito a diplomacia. O Lula (o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) deve muito ao Celso Amorim, com o qual meu filho (Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores) trabalhava. Também tem uma assessoria diplomática no Planalto e já tinha nos outros governos, Itamar Franco já tinha. Antonio (Antonio Patriota, o hoje ministro) trabalhou nessa assessoria do Planalto muito antes de ser embaixador em Washington. Essa assessoria ajuda muito.

Há algumas críticas sobre a diplomacia brasileira no que se refere aos custos. É caro manter essa estrutura nos países.

Antônio Patriota: A presença de um país como o Brasil que foi exaltado pelo presidente do Estados Unidos, Barack Obama, é cara. A diplomacia, queiramos ou não, ela é cara. Agora o Brasil tem embaixada e consulado em quase todos os países que interessam. Tem uma centena de embaixadas. Claro que isso é caro, mas é necessário se quisermos manter a presença que nos compete e para a qual nos achamos habilitados. Isso, realmente, pode, queiramos ou não, é o ônus indispensável.

De todos os presidentes da República com os quais o senhor trabalhou qual lhe marcou mais?

Antônio Patriota: Eu comecei a trabalhar, minha nomeação foi com Getúlio Vargas. Depois o Juscelino Kubitshek marcou muito porque eu quando cônsul adjunto em San Francisco da Califórnia fiz um mestrado na universidade da Califórnia. Naquela ocasião havia muita eferverscência de metas. Os programas de metas do Juscelino se deveu muito aos diplomatas. Um dos grandes economistas de então era o Otávio Dias Carneiro. O Juscelino me marcou muito. Mas servindo no exterior ou mesmo na Secretaria de Estado do Itamaraty você é um funcionário de uma entidade de Estado. Você não depende de política, de nomeação. Você é um servidor do Estado, é um republicano. Servi durante a ditadura. Inclusive fui prejudicado por ela, me aposentei com 55 anos, tendo entrado com 35 anos. Graças a promoção, ao empenho do próprio Itamaraty fui para as Nações Unidas como diretor. No total, trabalhei 20 anos como diplomata e fui outros seis anos representante do escritório das Nações Unidas no Caribe. Era um escritório com mais de 200 pessoas. Era um escritório de alto nível.

Seu filho, o ministro Antônio Patriota, lhe pede conselho?

Antônio Patriota: Eu procuro não interferir. Não me considero conselheiro dele. Claro que a gente conversa de vez em quando e dou minha opinião. Mas ele não me pede nada e não precisa. Ele é muito competente, tem muito traquejo, é um homem de carreira, desde os primórdio. Foi primeiro de turma para entrar no Rio Branco.

Se o senhor tivesse que dar um conselho a ele (o ministro Antônio Patriota) hoje diria o quê?

Antônio Patriota: Diria apenas que tivesse cautela para não dizer tolice. As vezes a tolice complica. O Lula dizia muita coisa certa, mas de vez em quando escorregava e dizia umas bobagens. Isso pesa muito e desgasta.

Foi tropeço do governo Lula estreitar as relações com o Abmadinejad (presidente do Irã) e com Hugo Chávez (presidente da Venezuela)?

Antônio Patriota: Digamos com o Abmadinejad o que se queixa muito é a tentativa ajeitar o programa nuclear junto com a Turquia. Isso, segundo consta, o próprio Obama havia aprovado previamente através do Celso Amorim. Foi uma tentativa que não deu certo, mas poderia ter dado. De qualquer maneira a tônica era o diálogo, conversar ao invés de encurralar uma pessoa supostamente perigosa como é esse homem. De maneira que eu não condenaria. Se eu tivesse essa responsabilidade talvez eu não tivesse feito, mas eu não condenaria o Brasil por aquela tentativa.

A diplomacia hoje do Instituto Rio Branco é alvo do sonho de milhares de pessoas que buscam ser diplomatas. O que o senhor diria para essas pessoas?

Antônio Patriota: No meu tempo você ingressava no Instituto Rio Branco e por acaso tinha bolsa. Hoje ao ingressar no Instituto Rio Branco você já tem remuneração como se fosse terceiro secretário. Já tenho uma neta na carreira. Tenho uma filha diplomata e casada com um embaixador. Um dos melhores empregos do mundo é a carreira diplomática do Brasil. Nosso passaporte vermelho é muito bem visto lá fora. Nós temos uma carreira que você tem toda liberdade, pode se especializar no que quiser e ao mesmo tempo servir na repartição onde está lotado. Hoje para você ingressar basta ter mérito. Seja branco, preto, rico, pobre, tendo mérito você ingressa.

Por: Anna Ruth Dantas // Tribuna do Norte
 

 


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