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MEMÓRIA
Embaixador Antonio Patriota
fala sobre diplomacia brasileira

Entrevista // Roberto Patriota em 28/02/2007

Embaixador Antônio Patriota

Descendente de herói brasileiro na Guerra do Paraguai, do qual herdou o sobrenome da família, o embaixador Antonio Patriota assumiu dia 23 de fevereiro passado a mais disputada embaixada do Brasil, a de Washington - EUA. Segundo explica ele, a nossa reportagem. Uma de suas funções será apresentar "a nossa compreensão do quadro regional" para evitar que os EUA julguem fenômenos como Hugo Chávez de maneira "precipitada ou estereotipada". Confira a entrevista com o novo embaixador na integra.

FOLHA - A percepção de que o Brasil deu preferência a outros países em detrimento dos EUA pode criar embaraço à sua nova função?
ANTONIO PATRIOTA -
Discordo. Talvez a explicação para essa percepção é que o que há de mais inovador na política externa do governo Lula não é a relação com os EUA, porque essa relação é importante, complexa, já há muito tempo. O que há de mais novo são as iniciativas envolvendo Índia, Brasil, África do Sul, a Cúpula Mercosul-Oriente Médio. Mas vamos olhar os números das exportações para os EUA. Nos quatro anos que antecederam a posse do presidente Lula, elas aumentaram US$ 5 bilhões. Nos quatro anos do governo Lula, aumentaram US$ 10 bilhões. Pode-se falar num amadurecimento da relação, que significa atenção às análises que não sejam coincidentes.

FOLHA - A Alca está morta?
PATRIOTA -
Não. Houve uma redefinição de contornos que levou ao acordo de Miami, prevendo acordos plurilaterais nas áreas em que um ou outro participante não quisesse assumir novas responsabilidades. Víamos como problemático o fato de a Alca parecer menos uma iniciativa voltada para a abertura de mercado -que nos interessa muito e pela qual vamos continuar trabalhando- e mais um esforço de harmonização de regulamentos e leis, por exemplo, na área de propriedade intelectual.

FOLHA - O ministro Amorim diz: o Brasil queria abertura de mercado, e os EUA queriam exportar suas leis, defender suas patentes.
PATRIOTA -
Exatamente. Na área também de investimentos, de compras governamentais. Aí não interessou para o Brasil, porque aquele modelo teria sido problemático para o nosso desenvolvimento industrial. Interessante registrar que essa avaliação se disseminou muito, até mesmo em setores que pareciam mais simpáticos à Alca.

FOLHA - Então, a Alca morreu.
PATRIOTA -
Olha...Algumas pessoas preferem dizer que está hibernando.

FOLHA - Quais os prazos para fechar um acordo?
PATRIOTA -
Se houver um esforço de conclusão acelerado, ela pode se concluir ainda antes do fim da vigência do TPA [Trade Promotion Authorities], a autorização especial que o Congresso dá para o Executivo negociar acordos comerciais.

FOLHA - Até junho ou julho?
PATRIOTA -
Há vozes no Partido Democrata admitindo até a possibilidade de prorrogação do TPA para além de junho ou julho. Mas o desejável seria que o acordo fosse fechado antes.

FOLHA - E quanto à vitória dos democratas nas últimas eleições? São mais protecionistas e poderiam ser mais duros nas negociações?
PATRIOTA -
O que se comenta é que farão um esforço para promover a inclusão de cláusulas trabalhistas e ambientais nos acordos, inclusive nos que estão em pauta para serem aprovados pelo Congresso dos EUA, com Peru e Colômbia.

FOLHA - Isso pode servir como barreira a exportações brasileiras.
PATRIOTA -
Pode, mas pode favorecer a integração regional.

FOLHA - Sabe como isso soou? Uma aliança latino-americana contra o protecionismo americano. Uma ameaça?
PATRIOTA -
Não acredito que se chegue a isso, até porque o governo americano dá demonstrações de querer relançar as negociações na OMC, coisa que interessa muito à região. Não tive intenção de fazer ameaça. Há mais de uma maneira para olhar isso. Tem que ver crise como oportunidade também.

FOLHA - Há possibilidade de o Brasil negociar acordos em separado, como fizeram outros países?
PATRIOTA -
Apesar dos acordos bilaterais, o comércio do Brasil com os países sul-americanos aumentou muito mais do que o comércio dos EUA com esses mesmos países. Indica que estamos acertando na região.

FOLHA - Chávez na Venezuela, Morales na Bolívia, Noriega na Nicarágua. Esse perfil não pode prejudicar as relações com os EUA?
PATRIOTA -
A Venezuela é o segundo parceiro comercial dos EUA na América Latina, e o Brasil é o terceiro. Retórica à parte, isso já diz tudo.

FOLHA - E as investidas de Chávez e Morales rumo à nacionalização de setores importantes para os EUA?
PATRIOTA -
Se olharmos para a América do Sul, todos os governos foram democraticamente eleitos. Quais são as outras regiões do mundo em desenvolvimento sobre as quais se possa dizer isso? Acho que nenhuma outra. Isso é que importa.

FOLHA - Na visita de Condoleeza Rice ao Brasil, ela disse que a legitimidade eleitoral era apenas um dado da democracia.
PATRIOTA -
É um dado, mas é fundamental. Outro aspecto é que têm sido eleitos na região líderes que dão importância à agenda social. Isso é relevante numa região tão marcada por desigualdades. O agravamento dessas desigualdades pode levar ao enfraquecimento da democracia. A ênfase no investimento social é positivo.

FOLHA - As últimas novidades do governo Chávez, como reeleições sucessivas, se enquadram em passos pela democracia?
PATRIOTA -
Até 1950 e poucos, os americanos tinham reeleições por tempo indeterminado. Franklin Roosevelt foi eleito quatro vezes.

FOLHA - O Brasil se orgulha de servir como mediador de crises na região. O sr. vai ser parte dessa tática?
PATRIOTA -
O presidente tem dito que você não pode buscar o desenvolvimento ignorando os países à volta. Estamos todos no mesmo barco. Isso contaminou a ação externa brasileira.

FOLHA - A Unctad (órgão da ONU), detectou que a América Latina foi a única região que perdeu investimento estrangeiro em 2006. O Brasil não é afetado por essas investidas da "república socialista do século 21" de Chávez?
PATRIOTA -
Você me fez lembrar de uma frase da Condoleeza Rice: "Eu me recuso a "chaveizar" a relação do Brasil com os EUA". Eu também. Temos uma boa relação com a Venezuela, e é preciso olhar o capitalismo do século 20 da Venezuela e ver que também não tinha nada para ser aplaudido. Um país com tantos recursos naturais que não traduziu isso num desenvolvimento econômico e social.

FOLHA - O sr. poderá ser porta-voz da região junto aos EUA?
PATRIOTA -
No máximo, podemos apresentar da maneira mais clara possível nossas análises, ponderações e a nossa compreensão do quadro regional para que não haja uma tendência a categorizar de maneira precipitada ou estereotipar, para que haja uma compreensão dos fenômenos dentro de sua dimensão real.

FOLHA - O sr. disse que o Brasil poderá ter um papel de mediador entre Cuba e os EUA.
PATRIOTA -
Não disse que o Brasil pode ser mediador. Disse que não nos furtaremos a compartilhar com os americanos nossas análises e ponderações.

FOLHA - Traduzindo do "diplomatês", o que significa?
PATRIOTA -
Cuba é assunto da política interna nos EUA. A comunidade de origem cubana em Miami tem peso político grande. Há um prisma muito particular pelo qual os EUA vêem a questão cubana. E não é o prisma brasileiro.

FOLHA - Qual é o prisma brasileiro?
PATRIOTA -
Com Cuba, particularmente, temos o desejo de evitar que haja acirramento de tensões desnecessariamente
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