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MEMÓRIA
Filha do poeta Porto Filho
revive seu passado em Touros

Entrevista // Roberto Patriota em 12/01/2002

Euridce Porto Fults

Em visita ao município de Touros, em janeiro de 2002, Euridces Porto Fults, filha do saudoso poeta José Porto Filho, falou sobre vida do poeta tourense em entrevista exclusiva para a rádio FM Mato Grande e Folha do Mato Grande. Na entrevista, Euridces, fala de forma bem humorada do passado, revive sua infância em Touros e relembra os momentos de dificuldade, quando seu pai, perseguido por adversários políticos foi obrigado a deixar o Estado e a vida pública desenvolvida em Touros e se mudar juntamente com toda a família para Recife e logo depois para o Rio de Janeiro aonde permaneceu até falecer em 1958 de um ataque de uremia no Hospital de Ipanema.

 

FOLHA - Euridces, como foi essa mudança repentina do poeta Porto Filho com toda a família para o Recife?

EURIDCES PORTO - Foi uma mudança difícil, todos tivemos que enfrentar e compreender a situação. Na época eu tinha 13 anos e o meu irmão Erasmo 11, tocamos o barco para frente, pois eu tenho uma mãe que é uma mulher de fibra e continuamos a luta e vencemos, graças a Deus.

FOLHA - Em algum momento, depois que se afastou de Touros, o poeta Porto Filho manifestou o desejo de retomar a carreira política interrompida?

EURIDCES - Olhe, o único desejo de vida pública do meu pai foi aqui, na terra dele, tanto em Recife como no Rio de Janeiro ele seguiu outro rumo, outra carreira, deixou a política para traz definitivamente.

FOLHA - Quando vocês chegaram no Rio de Janeiro, foi difícil organizar a vida de novo?

EURIDCES - Bem, em parte sim, mas meu pai tinha amigos também, e eles ajudaram a organizar a vida dele no Rio de Janeiro, conseguindo um bom emprego para ele.

FOLHA - Quem foram estes amigos?

EURIDCES - Na política meu pai conseguiu alguns inimigos, mas também fez muitos amigos. No Rio ele recebeu ajuda do ex-interventor do Rio Grande do Norte, Mário Câmara, Oscar Guedes, do ex-presidente Café Filho entre outros amigos da família.

FOLHA - O que representou para o poeta Porto Filho o afastamento de Touros?

EURIDCES - Foi doloroso para todos, ele escreveu até uma poesia, Ode a Touros. Durante muitos anos, acredito que até morrer, ele passava as férias dele em Touros. Vinha sozinho já que a minha mãe fez um juramento de nunca mais retornar a Touros. Ele nunca conseguiu esquecer a sua terra, ficava mais tempo em Rio do Fogo onde mantinha uma casa com outra família.

FOLHA - Em algum momento Porto Filho chegou a manifestar o desejo de retornar a viver em Touros?

EURIDCES - Não, ele nunca manifestou esse desejo pois sabia que a minha mãe não voltaria. A minha mãe ficou muito magoada com Touros, ela chegou a me dizer que não voltaria nem em sonho.

FOLHA - Ficou algum parente de vocês aqui em Touros?

EURIDCES - Não, a nossa família é muito pequena e boa parte dela é de Belém do Pará, aqui não ficou ninguém nosso.

FOLHA - Como era o poeta Porto Filho como pai?

EURIDCES - Ele era um pai liberal, um homem extremamente honesto, não tinha a preocupação de deixar herança, bens pessoais ou dinheiro para os filhos, mas entendia que a educação era o grande bem que podia nos dar. A grande preocupação dele era preparar os filhos para o mundo, e graças a Deus ele conseguiu. Ele adorava ensinar os filhos, amava poesia e quase todas as noites ele nos fazia decorar um soneto, ele estimulava a leitura de livros. Era um homem maravilhoso.

FOLHA - Qual a ligação de Porto Filho com o Vasco da Gama?

EURIDCES - Ele tinha uma paixão pelo mar, isso levou a um envolvimento forte com o Clube de Regatas Vasco da Gama, do qual ele chegou a ser diretor. No seu enterro, uma Guarda de Honra de atletas fardados do clube prestaram uma bonita homenagem a ele.

FOLHA - Como foi a sua vida depois da mudança para o Rio de Janeiro?

EURIDCES - Bem, continuei estudando, me formei e fui trabalhar na Petrobrás. Lá fiz muitas amizades e através de uma amiga de trabalho fui passar umas férias na Califórnia (EUA), lá essa minha amiga me apresentou o meu futuro marido. Passamos um bom tempo namorando e quando ele pediu para casar comigo falei a ele que depois de casada voltaria para o Brasil, pois não queria morar nos Estados Unidos. Ele topou e viemos para o Brasil. Passamos 21 anos casados, viajamos muito, conhecemos quase o mundo inteiro, até que ele faleceu.

FOLHA - Nos Estados Unidos você conviveu com alguns amigos aqui do Brasil?

EURIDCES - Sim, quando cheguei aos Estados Unidos, Mário Câmara, ex-interventor do Rio Grande do Norte, era na época chefe da Delegacia do Tesouro do Brasil nos Estados Unidos, ele me ajudou, só que conseguiu emprego sozinha, sem ajuda. Foi uma grande aventura, eu era jovem e tinha todo o mundo pela frente, foi maravilhoso, adorei.

FOLHA - Durante o período que você trabalhou nos Estados Unidos, alguém da família lhe acompanhou?

EURIDCES - Minha mãe me acompanhou e conseguiu fazer muitas amigas. Depois de quatro anos ela retornou para o Rio e eu passei mais três anos por lá, voltei casada e com um bom emprego na Embaixada Americana. meu marido era engenheiro elétrico e trabalhou na GE, até o fim.

FOLHA - O que representou o seu retorno a Touros depois de tantos anos?

EURIDCES - Na minha época Touros era uma vila, hoje se transformou numa bela cidade. Muito me emocionou a homenagem organizada por Ivanildo Penha e família, pelo prefeito Josemar França e tantos outros amigos. Foi um momento gratificante, fiquei muito agradecida com a bonita homenagem, reencontrei com pessoas da minha infância, me emocionei muito.

FOLHA - Depois que você saiu de Touros junto com a sua família, o que você levou na memória de Touros?

EURIDCES - Ah, o Parracho Seco, meu pai adorava pescar, adorava o mar, era uma beleza ir ao Parracho junto com a família, nunca esqueci da transparência das águas do Parracho, podia cair um alfinete no fundo do mar que você via. O Parracho é a minha grande saudade da minha época em Touros. Me recordo também da festa do Bom Jesus, quando eu saia na procissão vestida de anjo. As pessoas eram bem vestidas, usavam bolsas, luvas, chapéu. Meu pai sendo prefeito era muito respeitado. As missas eram bem organizadas, muito bonitas, ninguém ousava deixar de participar do novenário, as famílias eram integradas a igreja. A procissão do Bom Jesus era muito bonita, são recordações boas que guardo dentro de mim.

FOLHA - Euridces, a que se deve este seu alto astral, seu grande otimismo?

EURIDCES - A vida me ensinou muito, devemos estar sempre preparados para tudo, porque a turbulência vem, temos que pular a onda. Velhice não existe, a cabeça é quem manda na gente. Devemos encarar a vida positivamente.

 

 


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