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MEMÓRIA
Nilson Patriota relembra o seu 
primeiro encontro com Nova Cruz

Entrevista // Rafael Gustavo em 14/11/2006

Escritor e poeta Nilson PatriotaReleia entrevista com o escritor, acadêmico e jornalista Nilson Patriota, concedida ao jornal Gazeta do Agreste para a edição de novembro de 2006. Na entrevista ele fala um pouco sobre sua vida e seu primeiro encontro com a cidade de Nova Cruz.

GAZETA - Como começou o seu conhecimento na cidade de Nova Cruz?


Nilson Patriota – Eu diria, parafraseando o eminente jurista e distinto homem de letras que foi Djalma Marinho, que Nova Cruz foi a pátria sentimental da minha juventude. Avistei-a em uma manhã de julho de 1952, através da janela de um trem. A saudade de minha namorada me havia levado àquela viagem sentimental que, afinal de contas, acabou filosoficamente sem retorno. Essa namorada era Violeta, a quem os íntimos chamavam Viola. Ela estudava na Escola Doméstica de Natal, e eu a encontrei durante uma conferência do Dr.Otto Guerra, que se realizava na antiga Escola Industrial. Depois que a conheci verifiquei que Viola era ágil, versátil e ainda mais dotada de uma memória privilegiada. Lia muito e podia declamar poetas e dramaturgos como Shakespeare sem recorrer ao texto escrito, inteiramente de cor. Se tivesse estudado arte teatral em um centro elevado, certamente teria feito uma bela carreira, pois no teatrinho da escola representava muito bem. Por essa moça que extrapolava os padrões artísticos e intelectuais de sua geração provinciana, e de certo modo caipira, eu me apaixonei. Ela não está mais aqui para confirmar ou refutar o que digo, mas acho que, de sua parte, a recíproca foi também verdadeira. Por isso me resolvi a ir a Nova Cruz para visitá-la, pois ela estava ali em gozo de férias. O que veio depois é mais ou menos de domínio público e eu não careço comentar...

GAZETA – E como foi sua primeira visão de Nova Cruz?


Patriota – A visão de um jovem apaixonado que se embriaga com a sutil beleza das coisas que os outros não vêem. O dia acordara leitoso e nublado na data daquela histórica viagem. Possivelmente por isso as pessoas me davam a impressão de se moverem no campo, ao longo do caminho de ferro, como se andassem através de uma cortina de neblina ou mes mo de névoa. Por todo o trecho percorrido entre Natal e Goianinha os canaviais pareciam mais verdes e brilhantes sob o ameno sol da manhã orvalhada. Encantou-me a paisagem do Agreste, que só bem pouco conhecia. Eu examinava o panorama a partir de uma perspectiva móvel e projetada através da janela do trem, que sacolejava e rangia nos trilhos. De repente o mundo me pareceu um local agradável, um verde pátio de felicidade e poesia. Borboletas voejavam à margem do caminho, pássaros saltitavam nas ramagens. Em cada estação o comboio parava para o colorido espetáculo do povo a oferecer e vender guloseimas. Chegando a Nova Cruz, e já na estação, foi grande a minha alegria quando avistei Viola, que se fizera acompanhar de algumas amigas. A Zuleide e a Celma Lisboa eu já conhecia de Natal, às demais tive prazer em conhecer. Chamavam-se Dalva manso e Celeste Paiva. Senti-me feliz, tratado como um príncipe.

GAZETA – Como foi este seu primeiro dia em Nova Cruz?


Patriota – Um dia especial. Eu olhava nos olhos de minha namorada e não acreditava que ela fosse tão bonita como me parecia ser. Então pensei que o amor talvez fosse aquele sentimento e aquelas coisas que eu estava sentindo aquecendo meu sangue.

GAZETA – Qual foi a sua reação em contato com a família de sua namorada?


Patriota – A princípio foi de inibição. Eu ainda não tinha completado vinte e dois anos, e as pessoas adultas pareciam me encarar com respeito ou – quem sabe? – desconfiança. Podiam pensar que eu estava invadindo o gineceu da casa por acariciar a mão de minha namorada. Mas em pouco tempo o formalismo cedeu lugar à cordialidade e à confiança, e a conversa se processou com afabilidade e com leveza. O chefe da família era Adauto Carvalho, homem atencioso e educado, Sua mulher, Dona Alice, tinha bastante humor e um senso crítico dos melhores. Das figuras presentes à pequena recepção que me fizeram, destaco Dona Joaninha, avó materna de Viola. Desde o primeiro instante me cercou de toda a ternura maternal de que era capaz. Recordo que em livro escrito há muitos anos e hoje em dia inteiramente esgotado, dediquei-lhe uma crônica intitulada Meu Tipo Inesquecível. Gostei muito de Dona Quina, irmã de Dona Joaninha, e também bastante idosa. Naquele dia fui apresentado a Orlando Lira e Lúcia, sua mulher, que vieram de Lajinha, uma sua fazenda, para me conhecer. Com o tempo me tornaria íntimo dos membros da família Pereira Carvalho e bastante conhecido e amigo do povo de Nova Cruz. Anunciada, Conceição e Egídio marcaram um grande período de minha vida, e ainda mais a vida de meus filhos. Com os que ainda vivem, embora distante cultivo a amizade, com os que já partiram, o eterno respeito.

GAZETA – Como foi sua vida em Nova Cruz?

Patriota – Posso dizer que foi muito boa. Mas devo informar que só passei a morar em Nova Cruz depois de residir, já casado, cinco anos em Natal. Minha permanência como residente em Nova Cruz foi passageira. Cumpri apenas a determinação do governo do Estado, que para ali me deslocou a serviço. Em Novas Cruz encontrei muitos amigos. Quero reverenciar a todos citando alguns deles. Gostaria de poder falar longamente sobre orlando Lira, Manoel Lisboa, Celso e Aparecida Lisboa, Aryam da Cunha Lima (recentemente falecido), que se casara com Zuleide, irmã de Selma. Através de Aryam, Antônio, Mauro e Otalício Pessoa, Gostaria de me estender a respeito do poeta Diógenes, que considero o legítimo herdeiro e representante da intelectualidade da ilustre família Cunha Lima. Gostaria de falar sobre Chico Bezerra e sua esposa Lia, pais de Bernardo, Ana Maria, Valéria e Violante. Lia tinha educação requintada, filha que era do professor Celestino Pimentel, membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e diretor do Ateneu, o principal colégio público de Natal. Seria prazeroso me referir a Dona Santa, mãe de Aparecida Lisboa, mas a entrevista é limitada. Em certas ocasiões fico a recordar meus tempos em Nova Cruz, e me vêm à memória figuras como Belita, mãe de Alda, que fazia hilariantes versos políticos e os cantava. Lembro Nominando à janela, olhando sem enxergar direito os passantes, e lembro Gilberto Tinoco, Seu Matos, Dona Nenem, Joanita e Lauro Arruda. Como parlamentar fui adversário de Lauro, mas também fui seu amigo, apesar do fosso que em Nova Cruz separava o convívio de udenistas e pessedistas. Murilo Delgado, perfeito e sagaz como advogado, precisa ser lembrado, Que fazer? Lauro e Adauto foram amigos que a política partidária separara. Os dois representaram a essência de Nova Cruz de uma época de beligerância verbal, mas merecem e esperam, na Eternidade onde se encontram, por seus respectivos biógrafos.

GAZETA – O Senhor teve vida política em Nova Cruz?

Patriota – Claro, tive vida política e até fui votado quando me candidatei a deputado. Fiquei como primeiro suplente da bancada da UDN e exerci a deputação durante todo o mandato. Mas a minha política era feita mais no jornal e no rádio do que nos palanques. Estes eu freqüentei, muitas vezes, para pedir votos para outros. Fiz campanha para Odilon, Vingt Rosado, Djalma Marinho e Dinarte Mariz em todo o Estado. Como comentarista político fui talvez o mais arrojado de meu tempo. Defendi com ardor boas causas. Algumas perdi, outras ganhei.

GAZETA – Em sua vida, tão rica de acontecimentos, o senhor fez importantes amizades?


Patriota – Sim, e muitas. Quero, porém, destacar somente algumas, e, entre todas, entre as antigas e as modernas, a que me liga ao poeta Diógenes da Cunha Lima, grande figura humana que preside a Academia Norte Riograndense de Letras. Pondo em destaque esta amizade, lembro que tive a honra de ser amigo de homens Admiráveis como Creso Bezerra e Djalma Maranhão, respeitáveis prefeitos de Natal. Na noite em que Djalma Maranhão foi preso pela Revolução dos militares, eu havia apenas deixado o salão nobre da Prefeitura, onde estava sendo dirigida uma moção de apoio ao Governo Goular com a presença de vários deputados estaduais e mais de cinqüenta prefeitos de municípios do Estado. Se não me engano, o texto da moção de apoio fora redigido por mim. Fiz grande amizade com o político que foi, sem dúvida, o mais importante a governar o Rio Grande do Norte: Dinarte de Medeiros Mariz. Devo, provavelmente, a Dinarte a maior parte das coisas por mim conquistadas na vida. A amizade com esse líder imensamente humano, levou-me, por sua vez, à amizade com Djalma Marinho, com Dix Huit, com Vingt e Vingt-un-Rosado Maia e outras tantas figuras de grande envergadura no Estado. Fui amigo também de Antônio Soares, de Oto Guerra, de Alvamar Furtado, de Américo de Oliveira Costa, de Luis da Câmara Cascudo, e sou ainda amigo do sargento Mario, marido de minha comadre Conceição, cheia de filhos e filhas residentes ou não em Nova Cruz. Há, no entanto, uma amizade diferente, feita e conservada para a vida e a eternidade, que é a amizade que fiz com meu sogro Adauto Carvalho e com minha sogra, Alice Pereira Carvalho. São pessoas inesquecíveis e partes importantes de minha vida. A Celso e Aparecida Lisboa tive grande amizade, como também a Pedro Ferreira, a José Passo, barbeiro que se esforçava para fazer o melhor. Outra confortável amizade foi Pedro Xininim, heróico no repente destruidor e achincalhante, que não se amedrontava com cara feia nem levava desaforo para casa. Outra boa amizade foi com a figura alegre, desnalgada e às vezes cáustica que se chamava Zé Teixeira, o lírico arranjador dos altares e dos festejos de fim de ano em Nova Cruz. A amizade com Néco Teixeira, rábula competente, advogado da UDN, e sua companheira Dona Quina, dama de elegância social e pernas perfeitas. A amizade com o causídico da cidade, o caro Mário Manso, pai de Dalva, que resolvia as questões de ordem jurídica do contencioso local. A amizade com Brejeiro, o emérito cantor das noites claras, e com Pedro de Mãenana, o gentil sapateiro da forma perfeita. A amizade com Elieser, o arguto Caroba, pai de Arim e sonhador inveterado do sucesso e implementação da Comuna Proletária, atropelado por um burguês medíocre numa rua de Natal. A amizade com Ivã de Carvalho, com compadre Aryam Cunha Lima (recentemente falecido), com Abdon do Hotel, com Dr. Ramos e Dr. Otacílio, com o juiz Joaquim das Virgens e seus filhos, e ainda com muita gente, que não pode ser enumerada porque falta espaço e papel no jornal para conter tantos nomes.

GAZETA – Quando o senhor pretende visitar Nova Cruz?


Patriota – Nova Cruz foi a poesia e o enlevo de minha vida quando jovem. É hoje a lembrança bonita, a saudade sentida do que houve de bom no início de minha vida. Outro dia eu estava com Maria Emília na Suécia, quando um sereno curso d’água trouxe-me à retina o Curimataú. Tanto a paisagem física quanto a geografia humana de Nova Cruz resistem em minha lembrança e gravam-se em minha alma. Claro que pretendo visitar Nova Cruz. Principalmente se for convidado para algum acontecimento cultural. Gostaria de passar pela Rua Coronel Anísio Teixeira e ter a impressão de que Zizi conversa com os amigos na calçada e Helano despachava cerveja no balcão. Onde estarão agora aqueles que há tanto tempo não vejo? Impossível seria voltar à Nova Cruz de minha mocidade, quando tudo me parecia recém-criado, quando tudo me dava a impressão que saíra de um sonho. Posso voltar, no entanto, à Nova Cruz do presente, levando comigo alguma coisa para oferecer aos meus hipotéticos amigos das novas gerações, àquela juventude em flor que se interessa por livros porque gosta de ler. Quem sabe se não terei oportunidade de autografar algum de meus livros na Casa de Cultura de Nova Cruz, fundada por meu amigo François Silvestre, Presidente da Fundação José Augusto, que vem de resgatar os valores tradicionais e culturais do nosso interior, fazendo o que fez em Nova Cruz. Ali a velha estação da Great Westrn, onde Raimundo Leão desfilou seu charme e sua simpatia, anos e anos, é agora Casa da Cultura, coisa nobre e bela. E assim a velha estação continua fazendo lembrar a Nova Cruz de outrora, quando as manhãs e as tardes se animavam ao langoroso som do apito dos trens. Lembro, de passagem, que Zé do Café ali próximo manteve sua madrugadora banca para atender aos que partiam em viagem, fosse a cavalo, fosse de ônibus, fosse de trem.

GAZETA – Atualmente como anda sua atividade literária, está escrevendo algum livro?


Nilson Patriota – Está bem. Maria Emília, minha mulher, está selecionando e reunindo alguns poemas esparsos que venho publicando em jornal ao longo dos anos. Nunca publiquei um livro de poesia, por isso vejo nessa diligente ação de Emilinha um dado alvissareiro. Há pouco perdi dois computadores carregados de material literário. Mas ainda tenho muita coisa gravada em CD’s que posso aproveitar. Por outro lado, continuo escrevendo. Estou apostando nesse livro de poesia para o qual ainda não tenho título, mas que sairá, provavelmente, nos primeiros meses do próximo ano. Creio que será um bom livro, já que Maria Emília é pessoa familiarizada com a matéria e sabe escolher o melhor.

 

 


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