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(PARTE I)
Antecedentes da família
Patriota no Litoral Norte

Brasão original da Família Patriota - 1876Por: *Antonio Patriota

Com base em estudo do acadêmico norte-rio-grandense Nilson Patriota, publicado no suplemento de cultura do periódico Folha do Mato Grande, edição de dezembro de 1990, em homenagem ao centenário do poeta potiguar Luís Patriota, irmão mais moço do meu pai, Fábio Ferreira Patriota, julguei de utilidade parafrasear para conhecimento de meus filhos, netos e outros membros interessados da família, alguns dados pouco conhecidos que elucidam, principalmente, a origem do patronímico que nos é comum, e que herdamos do meu bisavô Trajano Martins de Castro a quem coube, de regresso da guerra do Paraguai, mudar o sobrenome de seus descendentes. Segundo Nilson, Luís Patriota, assim como Fábio, meu pai, chamado na intimidade Nonhô, junto com seus irmãos Maria Débora (chamada Santa) Nelson; Abdon (apelidado Nozinho); Luíza (a quem chamavam carinhosamente Dona Luíza); Hermelinda (tratada por Doninha); e o já mencionado Luís, o caçula, (a quem se referiam com o respeitável epíteto de Senhor), nasceram na povoação de Jacaré, próxima de Galinhos, no antigo município de Touros. Foram seus pais o comerciante Antonio Patriota e sua mulher Marcelina Minervina Ferreira. Ele era natural de Vila Nova (atual Pedro Velho), e ela de São Bento do Norte. Fábio veio ao mundo a 2 de julho de l893, e deveria chamar-se Fábio Ferreira Martins de Castro, não fora um capricho de seu avô paterno que de volta da Guerra do Paraguai adotara o cognome Patriota.

Reunião da família Patriota em foto de 1959Com efeito, Trajano Martins de Castro foi o que se pode chamar de entusiasta do Império, um monarquista convicto. No início do século XIX, seus ancestrais, oriundos de Cariris Novos, na divisa do Piauí com o Ceará, tangidos pelas secas se fixaram no agreste potiguar, e em Vila Nova e Canguaretama, desenvolveram modestas atividades comerciais. Eram todos gente simples, habituada no manejo do gado nas agrestes pastagens sertanejas e nos longos caminhos, que palmilhavam na condição de tropeiro e mascate, qual arautos das primitivas comunicações entre os núcleos atrasados do povoamento nascente. Gente simples e honrada, descendente de velhos troncos portugueses, tinha sempre presente o sentimento de Nação e de Pátria. E não foi por outra razão, afirma Nilson, que Trajano Martins de Castro, já casado e sendo pai de dois meninos, em l865 foi dos primeiros a se apresentar como voluntário para a defesa da Pátria ameaçada pela tirania paraguaia. Dali regressando em 1870, condecorado e coberto de glória, recebeu a alcunha de Patriota. Homem de temperamento ardente, imbuído do mais inocente entusiasmo, Trajano registrou os dois filhos que deixara pequeninos ao partir, mas já crescidos e fortes ao voltar dos campos de batalha, com o sobrenome com que fora distinguido. Isso feito, passou a aguardar a promoção à qual se achava com direito, bem como alguns outros benefícios constantes das promessas do Imperador aos que se sacrificaram na guerra. No entanto, a tardança no cumprimento de tais promessas ou, quem sabe, o eventual esquecimento de algumas delas, fizeram-no menos entusiasta ou até mesmo desiludido. Por isso, aos rebentos que lhe nasceram depois já não deu o sobrenome Patriota, mas o de Martins de Castro. Malgrado o seu arrependimento tardio, seus filhos Antonio e Francisco, os dois primeiros, deram origem à família Patriota, cujo núcleo inicial foram as praias do litoral norte do Estado, especialmente Touros, e em seguida Natal, onde a maior parte de seus descendentes se acha concentrada.

Voltando a Luís Patriota, cujo centenário de nascimento ensejou a publicação da presente pesquisa por parte do ilustre sobrinho, atual (2006) presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte e membro da potiguar Academia de Letras, Nilson Patriota, seguem alguns dados biográficos do poeta. Luís foi o sétimo e último filho de Antonio Patriota, que era o primeiro nascido da união de Trajano Martins de Castro com Alexandrina Isabel de Lira. Seus irmãos, como já mencionado, foram Débora, Nelson, Fábio, Abdon, Luíza e Hermelinda, ao todo sete, herdeiros da veia artística do progenitor e, recuadamente, da progênie ancestral. Todos, à exceção das mulheres, foram exímios violonistas com pendor para o canto, as serenatas e a vida boêmia. Apesar dessa tendência artística, eram comerciantes natos. Há notícia de que houve na família intelectuais e menestréis que se destacaram no passado, porém a inclinação lírica mais acentuada foi visível em Luís, o caçula dos irmãos do meu pai.

Nada de especial ilustra os primeiros anos da vida de Luís Patriota, a não ser sua precocidade em relação à escrita e à leitura, que aprendeu a dominar muito cedo, antes de completar o primeiro lustro de existência. No mais, foi uma criança comum, como qualquer outra de sua geração, no meio de parcos recursos e limitações em que se criou na pequena localidade litorânea, a Jacaré de sua infância. Ocupava-se com o aprendizado das disciplinas que lhe eram prescritas pelo mestre-escola Justino, residente na casa paterna. Brincava de jangadinhas com os meninos de sua idade e presenciava a faina dos pescadores. Ao que tudo indica, sua infância foi tranqüila e saudável. Seu pai era um dos principais comerciantes do lugarejo, gozando de prestígio na pequena comunidade que se constituía, em sua maior parte de pescadores e homens do campo, roceiros.

No meio pobre e restrito o comerciante era considerado abastado, endinheirado, não raro abordado no sentido de dar solução a pequenos problemas financeiros de parentes e conhecidos. Ao que consta, seu pai era homem de atitudes nobres e despreocupado com as grandes ambições; mas tornou-se figura estimada do litoral do Estado, onde mantinha representantes e fazia negócios. A fixação de Antonio Patriota na povoação de Jacaré se deu no ano de l884, com a aquisição de uma propriedade rural e a instalação de um armazém de compra e revenda de produtos do mar destinados às feiras do interior. Desse tipo de comércio tinha ele alguma experiência, adquirida com a prática de negócio semelhante do pai e do avô na localidade próxima da Penha. Dada a tradição de pai para filho, acreditava-se que Antonio Patriota era um homem rico na povoação de Jacaré. Mas ele era apenas um comerciante independente e abastado no contexto local, bom cidadão, que abria sua casa ao convívio de parentes e amigos, cumulando-os com sua prodigalidade e distraindo-os nas horas vagas com a sonoridade de sua voz agradável e os acordes do violão, instrumento em que era refinado mestre. Dispunha, evidentemente, de recursos para prover o sustento e bem-estar da família e podia se dar ao luxo de manter em casa um mestre-escola contratado para cuidar da instrução dos filhos, sem que isso lhe abalasse a estabilidade das finanças. Daí porque, não importando a estreiteza do meio em que foram criados, todos os seus filhos receberam na infância bom aprendizado, aliado a severa e aprimorada educação doméstica, dada pelos pais.

A povoação de Jacaré há muito desapareceu sob as dunas do norte-rio-grandense. Quando pré-adolescente, com meus 9 a 10 anos, passei alguns meses na casa de um padrinho meu, Antonio Cocão, na localidade vizinha de Galinhos. Ali presenciei o fenômeno da migração do areal litorâneo que se movimenta ao sabor dos ventos: os grãos de areia migram e vão formando novas dunas, cobrindo tudo que encontram pelo caminho. Havia pequenas casas que desapareciam em poucas semanas aterradas por morros que se formavam de repente, fechando até as portas de saída da noite para o dia. Essa situação melhorou ou foi mesmo solucionada em Galinhos na metade do século passado (XX) graças a recursos públicos e nova tecnologia aportados: tratores e maquinas pesadas empurraram mar adentro as dunas ameaçadoras e livraram o lugarejo de previsível enterro. Hoje Galinhos, que visitei há alguns anos em companhia do primo Carlos Rogério, tabelião em Touros (neto de tia Luiza) e Roberto Patriota, jornalista, editor da então Folha de Touros hoje Folha do Mato Grande, filho de Nilson, autor do estudo que lastreia o presente texto, pude testemunhar que a hoje próspera povoação de Galinhos “ganhou” topografia nova, plana à beira-mar livre da ameaça das dunas caminhantes.

Como já declarei alhures, o meu tio “Sinhô”, Luís Patriota, foi um ícone da minha juventude. Entre nós dois havia diferença de apenas dezesseis anos, éramos praticamente da mesma geração. Educado, culto, avançado para o seu tempo e o ambiente em que vivia, era ele um espírito moderno. Foi através do tio “Sinhô” que na década de 1920 entrei em contato com a maquina de escrever – a datilografia – e a de tirar retrato. Em Lajes ele possuía uma pequena imprensa, com prelo e tipos móveis. Foi nessa tipografia rudimentar que aprendi a compor textos com os tipos selecionados, um a um, num compositor manual. É como se dissesse hoje que foi ele quem me introduziu ao computador, aos recursos da informática, à internet. Além disso, tinha espírito empresarial, organizava sessões de cinematógrafos, creio que com equipamento alugado, de grupo ambulante que percorria o interior. Foi numa dessas sessões que assisti à primeira versão do filme Bem Hur, rodada em Hollywood em l925, tendo como protagonista o ator de origem mexicana Ramon Novarro Era um filme mudo, acompanhado com música incidental em discos de gramofone.

Em 1904 a família de Antonio Patriota mudou-se para a então Vila de Touros, lugar mais populoso do que Jacaré, onde comprou uma morada na Rua do Capim, atual Ferreira Itajubá. Era uma sólida construção de pedra e tijolo, erguida por ilustre membro da família Antunes, uma das mais tradicionais famílias da região, ali chegada antes da fundação do município em 1835. Nessa ocasião alojou os dependentes e instalou um armazém de secos e molhados em cômodo contíguo. Teve pouco tempo em Touros. Acometido com hepatite morre em 1905, menos de um ano de sua chegada à vila, deixando a viúva a braços com seis filhos menores e uma mocinha de dezoito anos – Débora.

Foi em Touros onde nasci, o primeiro de cinco filhos de Fabio (Nonhô) e Maria Lopes de Oliveira filha de Miguel Lopes de Oliveira e Belmira Maria de Oliveira, ambos originários do município. Gente simples descendentes de pescadores e roceiros, mas que deixou extensa prole. Um de seus filhos, irmão mais moço de minha mãe, Jose Lopes de Oliveira, conhecido como José Bendito era ferreiro, e com sua mulher, Adelaide, teve dezessete filhos.

Em Touros e Natal vivi até os quinze anos. Meu pai foi durante anos funcionário da Cia. de navegação Costeira (a dos navios Itas), morando em Natal. Quando perdeu o emprego de “conferente”, que obtivera mercê da sua boa educação e excelente caligrafia (o que era então muito apreciado, antes dos atuais recursos técnicos da informática e mesmo da divulgação da datilografia), regressamos a Touros, acolhidos pelo tio Nelson, irmão mais velho do meu pai, dono de mercearia – padaria (“genaral store) adjunto a cujo negócio havia um salão de bilhar (“Tujague”), bar e barbearia, conjunto que o meu pai passou a gerenciar. Enquanto estivemos em Touros, eu freqüentei o grupo escolar local,Cel. Antonio Florêncio do Lago e, embora bom aluno,terminado o quarto e último ano, repeti o mesmo como ouvinte, por falta de alternativa. Em Touros não havia ginásio e os meus pais não tinham recursos para me mandar estudar em Natal ou Recife, como eu desejava.

LAJES

Foi aí que surgiu a oportunidade de passar uma temporada em Lajes, no sertão do Rio Grande do Norte onde o tio “Sinhô” era professor e advogado (rábula, defensor prático, sem diploma, que supria a falta de advogados qualificados). Eu já havia visitado a minha tia Santa, casada com o fazendeiro e comerciante de origem pernambucana Aureliano Moura, que morava em Lajes. E, em companhia de meu pai, viajando de trem, a partir de Natal, pela antiga Great Western do Rio Grande do Norte, quando tinha 8 ou 9 anos, conhecera a pequena cidade do sertão potiguar, localidade onde chove muito pouco. Ali a tia Santa (Débora), cujo marido tinha propriedades e um comércio importante de secos e molhados já havia abrigado o irmão mais moço, Luís, depois do falecimento da mãe, que o deixara órfão aos treze anos.

Ela cerca de cuidados o irmão, proporcionando-lhe os livros que desejava e até um violão. Menino ainda, passa a trabalhar no balcão da loja, integrando-se aos poucos na vida social local. O rapazola estuda Língua Portuguesa, Matemática, História e Contabilidade e, tendo pendor para a leitura, lê vorazmente poesias e romances, tudo que lhe chega às mãos, obras encomendadas pelo correio, procedentes de Natal e Recife. Autodidata, já em l9l4, com apenas dezesseis anos, começa a lecionar Português para uma turma de moços que trabalham, como ele, no comércio de Lajes. Seus méritos são reconhecidos e, aos poucos, se firma como professor e contabilista, encarregado em 1916 da escrita contábil e fiscal de algumas firmas da praça, atuando, inclusive, na Associação Caixeiral. Luís Patriota desenvolve-se intelectual e profissionalmente em Lajes, passando a lecionar, a escrever poesia e artigos na imprensa, a pronunciar palestras e conferências, participando da fundação de sociedades lítero-recreativas, encontros políticos, nos quais se destaca na defesa das teses republicanas e liberais do seu tempo. É então que passa a advogar, como rábula, não só em Lajes, mas em outras comarcas, tendo sido nomeado Adjunto de Promotor em Açu, município ao norte de Touros.

Em 1929, se me recordo bem, viajei com o tio Sinhô em companhia da prima Waldemira, viúva recente, com apenas l6 anos, numa viagem de Touros a Lajes em lombo de cavalos e mulas. Éramos quatro viajantes, com a ajuda de um guia. Parte da viagem foi feita à noite, e os animais por vezes refugavam o caminho, onde aparecia cobras, ratos e preás. Levamos uns dois dias para cobrir uma distância que em linha reta terá pouco mais de uns l00 quilômetros. O tio Sinhô já namorava a sobrinha viúva com quem eventualmente veio a casar-se. Com ela teve vários filhos. Eu fiquei hospedado na casa deles, e muito aproveitei em termos de estudos, já que o tio Sinhô, além de escritor e poeta, era um culto educador, professor experiente, como visto acima. Em Lajes passei cerca de um ano, regressando a Touros, onde o meu pai lutava como podia para sustentar a família, com mulher e cinco filhos. Depois de exercer um trabalho municipal como uma espécie de supervisor, ou capataz, na construção de uma estrada vicinal, em direção a Natal (o que só seria concluída muito tempo depois), voltamos à capital do Estado, com a intenção de seguir para o Rio de Janeiro, onde minha mãe tinha duas irmãs casadas e outros irmãos solteiros que se dispunham a nos acolher.

No trânsito por Natal, já com as passagens arranjadas em navio – o Raul Soares, do Lóide Brasileiro – graças aos antigos conhecimentos do meu pai, que trabalhara no ramo da marinha mercante, quando por anos fora conferente da Cia. de Navegação Costeira (aquela dos Itas do Norte, cantados por Dorival Caymmi), o meu pai adoeceu gravemente e morreu em poucas semanas. Enterrado no cemitério do Alecrim, em Natal, em 22 de outubro de 1932 o meu pai Fábio Ferreira Patriota, minha mãe, Maria de Oliveira Patriota, sua viúva, serviu-se imediatamente das passagens de terceira classe por ele conseguidas e nos levou a todos, os seus cinco filhos, para o Rio de Janeiro. A viagem foi de pouco conforto, alguns de nós enjoados com o balanço do navio. Levamos vários dias, com escalas em Recife e Salvador. No transcurso dessa viagem completei l6 anos, “sem festa, sem luar, sem violão” como diria o Noel Rosa. Acomodados precariamente, distribuídos entre os tios, irmãos de minha mãe, dois aqui, três acolá, fomos levando a vida “à trouxe-mouxe”, até que eu, o mais velho dos irmãos, começasse a trabalhar e estudar à noite (mas essa é uma longa estória que contarei mais adiante)

DE LAJES A TOUROS

De volta a Touros, em 1930, continuei o aprendizado de Português, Aritmética, História e noções de Latim, em companhia de meu primo Jefferson Patriota, irmão de Waldemira, com o Padre Manuel da Costa Pereira, vigário de Touros de 1928 a 1930. A experiência desse nosso aprendizado com o Pe. Costa, pessoa bem instruída e simpática, foi bastante gratificante, no que me diz respeito. Conquanto eu percebesse que o intuito do vigário era, em última análise, o de catequizar-nos em definitivo para a Igreja, ele se mostrava sempre interessado em ensinar-nos, e sua postura era correta e digna. Não obstante, conseguiu me convencer a aprender a ajudar à missa: (“-Introibo ad altáre Dei ./Ad Deum qui laetifica juventútem meam...”). Dom Manuel da Costa, no seu proselitismo, fazia o que fazem todos os pregadores, uma subliminar lavagem cerebral – objetivo de toda e qualquer religião. No meu caso, não só aproveitei as noções de Latim mas também absorvi o catecismo, isto é, a doutrina elementar da religião católica , o que era grato à minha família. No que toca ao exercício de ajudar à missa, ainda hoje recito do Orate fratres : (“Suscipiat Dóminus sacrificium de mánibus tuis, ad laudem, et gloriam nominis sui, ad utilitátem quoque nostram, totiúsque Eclesiae sua sanctae. – Amen”) E, sem dúvida, me ficou um substrato latino que me tem sido valioso, ao longo da vida, no aperfeiçoamento da língua portuguesa, instrumento primordial de qualquer profissão, principalmente daquela que eu viria eventualmente a seguir – a carreira diplomática.

A vida em Touros e, assim, em quase todo o interior do nosso país era pacata, sem conforto, girando quase tudo em função do ambiente doméstico e, este, influenciado em tudo pela Igreja. No primeiro quartel do século XX, quando nasci, só nas grandes capitais havia eletricidade. As noites no interior eram longas, escuras, iluminadas precariamente a velas e querosene: candeeiros, lamparinas, candeias. Havia lâmpadas à carbureto que forneciam iluminação feérica, excelente para a leitura à noite. Na loja do meu tio Nelson, e em sua casa, tinha-se essa comodidade. E saudosamente me lembro das seguidas noites em que o tio Nelson reunia a família (eu inclusive) para a leitura de capítulos de História, livros, jornais,e recordo-me de que tomei conhecimento da saga de Canudos pela leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha, metodicamente feita à luz de grande lanterna à carbureto, pela voz firme e de boa dicção do tio Nelson, ele mesmo deficiente visual – só enxergava por um olho, tendo o outro vazado. Só muitos anos depois, ao ler pela primeira vez Os Sertões, dei-me conta de que guardava na memória nomes, lugares, os acontecimentos ouvidos na minha infância, à luz de uma lâmpada à carbureto, em torno de uma mesa de jantar na casa do irmão mais velho do meu pai, na rua do Capim, hoje Ferreira tajubá, em Touros, nos idos de 1929-30. Iniciei o parágrafo anterior com as palavras De Volta a Touros, e isso me fez recordar o poema do mesmo título, de autoria de Luís Patriota, do qual reproduzo a primeira estrofe, pela razão que adiante explicarei:

“Depois de longa ausência,
eu volto ainda,
Para onde estás, e quero
em teu regaço
Cantar, na comoção de ardente abraço
O lausperene da saudade
Infinda.

O vocábulo lausperene sempre me causou espécie, não o entendia. Recorri ao Dicionário. Significa: “Adoração permanente ao Santíssimo Sacramento nas Igrejas duma cidade”, entre outras acepções litúrgicas. Era o nosso vate rebuscando erudição... O resto do poema é bastante inspirado, toca ao coração dos tourenses.

A vida que levávamos na pequena vila era singela. Girava quase tudo em torno da Igreja do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, padroeiro local. A igreja já tinha mais de cem anos, construída em l800. Meus pais e toda a família colaboravam, sem fanatismo, nos trabalhos religiosos, nas festas, nas quermesses. Os acontecimentos principais eram os batizados, primeira comunhão, casamentos e os dias santificados, além das missas dominicais, que assistíamos sempre bem vestidos, com a melhor roupa, por vezes roupa nova. As festas juninas – Santo Antonio, São João, São Pedro e São Paulo – e, principalmente, a celebração, a primeiro de janeiro, do dia do padroeiro, o Bom Jesus, com missa solene, procissão e quermesse em torno da igreja. Para a festa do padroeiro havia sempre muita afluência de gente vinda da vizinhança, da capital e até do exterior, e as praias ficavam cheias de banhistas muitos dos quais viam o mar pela primeira vez. A Semana Santa, o mês de Maria, as Ladainhas e outros eventos litúrgicos preenchiam o calendário profano-religioso da comunidade, complementado, no meu caso e dos meus irmãos, com estudos domésticos. Meu pai e minha mãe possuíam instrução acima da média, no contexto local.

Naquele tempo a Vila de Touros era apenas mais um entre tantos outros núcleos demográficos do atrasado litoral norte do Estado. Excetuada a pequena elite econômica, constituída por umas poucas famílias bem aquinhoadas, a vila abrigava apenas uma comunidade heterogenia e pobre. A vida comunal, antes ativa e vigorosa, arrasta-se cansada. A decadência, que antes atingira a região após a abolição dos escravos, ali se faz presente em toda parte, diz o acadêmico Nilson Patriota: “Com o encerramento parcial das atividades dos bangüês que animavam os vales, notadamente o do Maxaranguape, e a conseqüente evasão de seus proprietários e artífices, a incipiente economia do município chega a beirar a estagnação. Visível por toda parte é o marasmo econômico e social: nas residências que se deterioram à míngua de consertos; nas instalações dos estabelecimentos rurais, que sofrem o avanço do mato: no desmantelamento dos currais-de-apanhar-peixe, carentes de renovação do madeirame; e na desilusão e apatia que a todos parece dominar.” Tirante o movimento do porto, já então sobremodo limitado, todo o resto da ocupação produtiva se acha em baixa. Uma ou outra Almanjarra ainda mói, mas as manufaturas produzidas são de terceira categoria: o açúcar mascavo, a rapadura, o mel e a aguardente. Na vila propriamente dita, a população sem renda e sem emprego, se ocupa da pesca com tresmalhos ou vive primitivamente de uma agricultura rudimentar e incapaz de manter quem a pratica.

Amofinadas pela pobreza, que as encerra em casa, as pessoas relutam em sair até mesmo à porta da casa. Uma ou outra, que se aventura a observar as ruas melancólicas e mornas, nelas constata a ausência de vida, a não ser que considere como tal a serena presença de vacas e jumentos roendo o paturá das margens lamacentas do rio. O ano todo é a mesma rotina, descreve Nilson. Como parte de um ritual obrigatório e secular, logo cedo os homens tomam o rumo da praia, levando pendurado no lombo os petrechos de pesca. Em casa, ficam as mulheres. Umas fiando intermináveis “labirintos”, outras a trabalhar na almofada de bilros, as “mulheres rendeiras”, em que urdem filigranas artesanais, como rendas e bicos primorosos, mas de pouquíssimo valor comercial. Sentadas em grupo à soleira das portas, solfejam modinhas: discutem umas com as outras, fingem cuidados com a prole raquítica e numerosa. Ao cair da tarde, quais silenciosos espectros, os pescadores regressam. Trazem de volta seus teréns. Enfiado numa embira, vem o pescado miúdo destinado à única refeição do dia, que consiste de peixe cozido com pirão.”

Raras eram as casas, naquela época, em que se botava a mesa três vezes ao dia, na Vila de Touros. Mais raras ainda as que dispunham de mesa e cadeiras. Na mansarda do pescador e das famílias das classes mais pobres, a mesa se resumia a uma toalha ou pano estendido no chão, sobre o qual se depositavam os pratos com o alimento saído do fogo. Ali em torno, sentados sobre as pernas ou acocorados, serviam-se os membros da família. Os filhos da viúva Marcelina Minervina tinham outro padrão de vida, pois constavam da exceção formada pela classe abastada. Estavam, porém, sujeitos, indiretamente, ao marasmo econômico da vila em que não eram apenas os ricos seus fregueses. Por isso, malgrado os esforços da viúva, declinou a condição de vida da família. As vendas, feitas a crédito, nem sempre eram recebidas. E assim as prateleiras do armazém se desfalcavam de vários tipos de mercadorias, assinalando a decadência do negócio.

*Antonio Patriota é diplomata aposentado

Confira entrevista com Antonio Patriota
http://www.folhadomatogrande.com.br/entrevista_02.htm

  ARQUIVO VIVO PARTE 15 

 

 


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