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MEMÓRIA
Adeus as aulas do grupo
escolar Cel. Antônio do Lago

Por: Maria Antonia Teixeira da Costa
toniatc@terra.com.br

É verão de 2009 e passado o carnaval os alunos que estudam nas escolas da cidade de Touros-RN, aguardam o dia do retorno às aulas, porém no Grupo Escolar Cel. Antônio do Lago, esse dia parece que não mais chegará, pois o Grupo não conseguiu vencer às intempéries do tempo que passa e deixa marcas profundas em seus 81 anos de criação, principalmente quando não cuidamos da preservação de prédios que fizeram e fazem a história de um lugar. É lamentável e entristecedor olhar o Grupo Escolar e ver a sua decadência quando foi anteriormente palco cultural da cidade, local de grandes festividades, e principalmente aquele que formou inúmeros homens e mulheres. O Grupo Escolar foi criado de acordo com o Decreto-Lei nº 350, de 15 de dezembro de 1927, durante o governo de José Augusto Bezerra e prefeito da cidade de Touros, o senhor Francisco Zacarias da Costa e Silva, o qual assumiu a intendência em 1º de Janeiro de 1926 e permaneceu até 10 de janeiro de 1928, quando é eleito o coronel Joel Christino de Medeiros. Após a Revolução de 1930, ocorre o fim do regime de intendentes e os municípios passam a ser governados por prefeitos. Assim Joel Christino de Medeiros tornou-se o primeiro prefeito de Touros-RN, é o que nos afirma o escritor Nilson Patriota em sua obra: “Touros - uma cidade do Brasil” e o Grupo Escolar a primeira escola pública da cidade e região.

Apesar de criado em 1927, o Grupo Escolar só começou a funcionar no segundo semestre de 1928, segundo nos relata Geraldo Gonzaga da Costa, em seu “Touros a meia tinta”. Os primeiros professores em 1928 foram: Ezilda Elita da Silva, Lourdes Mesquita de Melo; em 1929: Laura dos Santos, Lydia dos Santos, Ana Anita de Mello. Todas essas professoras foram citadas por Nilson Patriota.

Quanto aos diretores tivemos: Ezilda como a primeira diretora do Grupo; de 1931 a 1933, assumiu a direção a professora Lindalva Alves Taveira; de 1934 a 1935, temos como diretor o Antônio Estevam, de 1934 a 1935; de 1935 a 1937, a professora Silvia Barbosa; de 1938 a 1945, a professora Glaucia de Paiva assume a direção do Grupo; de 1946 a 1968 ficou na direção a professora Neuza de Aguiar.

O patrono do Grupo foi o Cel. Antônio Florêncio Pereira do Lago, o qual, para Nilson Patriota foi um dos mais ilustres filhos de Touros, cuja vida será sempre orgulho para os brasileiros em geral. Ele constitui um desses casos raros de homens que, nascidos num meio humilde e atrasado alcança uma posição que quase sempre somente e alcançada pelos que vêm ao mundo bafejados pelo poder político. Antônio Florêncio Pereira do Lago, nasceu na povoação São José de Touros, em 10 de maio de 1825.

Foi neste Grupo aonde realizei o meu primário, nos anos de 1970 a 1973. Conforme conversa com a professora Maria do Socorro Coutinho França por volta de 1987, quando a reencontrei em Natal, eu já atuando como professora do magistério secundário, ela afirmou que assumiu a direção do Grupo de 1971 a 1974.

O Grupo funcionava três turnos: matutino, intermediário e vespertino, com três primeiras séries, duas segundas séries, uma terceira série e uma quarta série, com aproximadamente duzentos e quarenta e hum alunos (241)

Tive como professoras: Isaura Gomes de Souza, professora da primeira série, meiga, muito amorosa; Maria Tavares de Melo, professora da 2ª série, a qual tive o prazer de recebê-la como convidada em minha festa de formatura do Curso de Pedagogia realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em janeiro de 1986; Maria do Céu Teixeira da Costa, da 3ª série, a minha mãe.

Na 4ª série tive como professoras: Terezinha Antunes de Melo e Maria Nizete dos Santos. Foram meus colegas na 4ª série primária em 1974: Angelo Luis Soares Nery , José Américo de Souza Grilo, Luisa Evânia R. Leite, Maria Gorete M. do Nascimento, Cleide Soares de Moura, Décio Marques Santana, Luis Carlos da Silva, Vera Lúcia França, entre outros não citados, por dificuldade de lembrar nomes, afinal estamos em 2009 e já se passaram trinta e quatro anos, desde o último ano em que estudei lá.

A rotina das atividades escolares era variada conforme os dias da semana. Recordo-me que nos dias de quinta cantávamos o Hino Nacional, outras vezes o Hino do Rio Grande do Norte; ou o Hino da Bandeira; recitávamos poesias, fazíamos muitas leituras, ditado de palavras, usávamos o dicionário. Na 3ª série estudei um livro chamado de “Terra Potiguar”, publicado em 1969. Este livro foi escrito por Maria Alexandrina Sampaio, Maria das Neves Queiroz Soares, Concessa Cunha Figueiredo e Zilda Lopes do Rego. Em meu Doutoramento, pesquisando em arquivos públicos na cidade de Natal, em um dos arquivos pesquisados, encontrei este livro e tive o prazer de recordar-me das leituras da 3ª série. Na 4ª série estudei com o Livro de Admissão.

Quanto às festas do Grupo, eram bem animadas e as famílias participavam ativamente, as professoras e a direção não se esquecia de comemorar conosco a páscoa, a escola preparava café da manhã; o dia do índio, as festas juninas, com quadrilhas e danças; dia do soldado, o dia da árvore, 7 de setembro, com grandes e bonitos desfiles; Proclamação da República; Dia da Bandeira; Natal, entre outras. Hoje acredito que a escola não faz mais festas como nos meus dias de primário. Creio que ela perdeu muito em negar os dias festivos. É claro que a história não se faz apenas de datas comemorativas, porém não podemos negá-las. Podemos trabalhar datas com outras significações.

As brincadeiras entre os colegas eram prazerosas, aqui ou acolá alguma briga de menino, apesar de que a disciplina era bem presente na escola. Lembro-me de uma mangueira, linda e frondosa situada no fundo do Grupo Escolar, ela era alvo dos alunos mais levados. Havia o momento do recreio quando era servida a merenda na cantina. Havia dias em que todos nós levávamos verduras para a merendeira fazer uma gostosa sopa; outros dias eram frutas diversas, muitas vezes colhidas no próprio quintal da casa e tínhamos então uma salada de frutas. Após o recreio, tocava o sino, era hora de voltar para sala de aula.

E o sino do Grupo Escolar ressoa em meus ouvidos nesse momento de recordações e provavelmente nunca mais tocará para avisar que é hora da aula começar. Saudades misturadas com outros sentimentos como o de indignação ao ver um patrimônio histórico praticamente destruído e esquecido por muitos.

Maria Antônia Teixeira da Costa, é professora
da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

  ARQUIVO VIVO PARTE 12 

 


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