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MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta VII
Por: Lindonor Patriota

Francisco Leite de Carvalho, além das muitas qualidades já citadas nesta coluna era também músico, flautista de primeira linha adorava   participar de serestas e como flautista sempre que tinha oportunidade se apresentava em serestas realizadas na cidade. Se fazia acompanhar do amigo, Belchior Batista de Oliveira, (ainda hoje em plena atividade como barbeiro), que era encubido de molhar a flauta num recipiente cheio de água, para que a mesma pudesse render todas as notas musicais, que as vezes se negava por se encontrar seca.

O Juiz Francisco Leite terminou se tornando compadre de fogueira de Belchior, uma vez que foi padrinho de Paulo de Belchior, filho do barbeiro, que ainda hoje reside em Touros. No inicio de 1951, Dr. Francisco Leite foi a Natal para alugar uma casa e instalar os filhos na capital, uma vez que em Touros não existiam escolas de nível naquela época. Dias depois tive que ir resolver alguns problemas do cartório em Natal, chegando no centro da cidade me deparo com uma grande quantidade de pessoas que se encontravam lendo jornais na então conhecida banca de revista "O Zepelin", na manchete a notícia que me deixou perplexo: "Dr. Francisco Leite de Carvalho assassinado", a notícia contava que ele tinha sido ferido mortalmente com um objeto cortante pelo estudante universitário, Pericles Pereira, que se encontrava desaparecido naquele momento.

As verdadeiras razões do crime a sociedade nunca ficou sabendo, embora muitos desconfiassem de algum tipo de envolvimento do Juiz com o estudante. A investigação do caso no entanto nunca esclareceu o fato, uma vez que o estudante fugiu para o sudeste do país aonde passou a residir anonimamente por muitos e muitos anos, sem que fosse localizado.

A morte do Dr. Leite mexeu com a comunidade tourense de uma forma muito grande, as pessoas ficaram sem acreditar que fosse possível uma coisa assim acontecer com um homem de bem como ele. Eram muitos os amigos do Dr. Leite no município, entre eles destacamos o então prefeito, Severino Rodrigues Santiago, e demais autoridades do município. Entre os populares a estima ao Dr. Leite também era grande. Depois de sua morte seus familiares foram para Natal, aonde foi sepultado. Sua família permanece na capital até hoje, um dos seus filhos que é médico tem uma conhecida clínica de saúde em Natal denominado Lucila Carvalho, mãe do médico.

Com a vaga do Dr. Francisco Leite, foi nomeado em seu lugar o Dr. Joaquim Arnoud Gomes Neto, irmão do conhecido deputado e líder da região naquela época, José Arnoud, e diretor da empresa João Câmara Indústria e Comercio, que tinha sido de propriedade do então senador João Severiano da Câmara, então falecido.
Joaquim Arnoud continuou o mesmo trabalho que vinha sendo desenvolvido pelo Dr. Leite, de consolidação da Comarca. Homem ainda jovem, era solteiro de estatura baixa e tinha problemas de visão. Destro ao escrever, era também um fumante compulsivo. Chegou a passar quase dez anos como Juiz da Comarca. Residia próximo ao mercado público em casa alugada, denominada "casa da calçada alta", na esquina da rua Cel. Antônio Antunes com Praça do Centenário.

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta VIII
Por: Lindonor Patriota

Dr. Joaquim Arnoud, depois de já instalado em casa alugada na esquina da rua Cel. Antunes com a Praça do Centenário, tratou logo de montar seu escritório, local aonde despachava processo nas horas extras, quando findava o expediente no então Cartório Único de Touros. Nesta época eu já era auxiliar do cartório, uma vez que meu pai Julio Maria se encontrava vivo e ocupava a função de tabelião e escrivão público, dessa feita acompanhava o dia a dia da Comarca.

Apesar de ter casa montada em Touros com escritório e até biblioteca, o Dr. Joaquim Arnoud residia na verdade em Natal, comparecendo a nossa Comarca uma vez por mês, demorando-se por aqui cerca de cinco dias. Dr. Arnoud tinha uma vida social limitada, homem de poucas palavras se limitava aos bate papos na agência dos Correios no final do expediente. Era muito amigo de dona Neuza Aguiar, diretora do Grupo Escolar Cel. Antônio do Lago e de dona Rita Regina de França diretora dos Correios, como também de sua auxiliar Maria de Paiva França.

Dr. Joaquim Arnoud foi o primeiro juiz a convocar o Tribunal de Júri em Touros, depois da instalação da Comarca. Este fato ocorreu em outubro de 1954, quando foi julgado um crime hediondo ocorrido em Santa Luzia de Touros e que muito abalou a população tal a sua gravidade. Luiz Tarquino era um comerciante de peixe e namorava com uma moça que residia em Santa Luzia, certa noite ele penetrou nos aposentos da moça, violando a casa e foi surpreendido pelo pai da moça que não gostou da liberdade. Em meio a discussão Luiz Tarquino que se fazia acompanhar por Pedro Bezerra terminou por matar o pai da namorada com várias facadas.

O julgamento de Luiz Tarquino e Pedro Bezerra foi um acontecimento lamentável, mas e que chocou toda a população do município na época. O crime ocorreu em 1947, e o Tribunal do Júri em 1954, como falamos antes. Muita gente acompanhou o julgamento de Tarquino e Bezerra que se estendeu por três longos dias, sempre com muita participação popular que lotava o salão do antigo Palácio Porto Filho, então sede da Prefeitura de Touros. O julgamento contou com a participação do Dr. André Luiz Barbosa Cavalcante, que ofereceu libelo acusatório contra os acusados.

Os réus foram condenados a 22 anos de reclusão, cada um, tendo cumprido a pena na Casa de Detenção de Natal, haja vista que não existia a Colônia Penal João Chaves naquele tempo.

Além deste famoso júri, o Dr. Joaquim Arnoud também participou do então "novo alistamento eleitoral", que pela primeira vez na história, utilizou fotografia no título de eleitor além da inovação do requerimento feito pelo próprio eleitor, uma vez que antes disso, o requerimento podia ser preenchido por qualquer pessoa. Em virtude do novo alistamento, o Juiz designou o escrivão eleitoral e outros funcionários do cartório para se locomoverem para os distritos de Touros a Barra de Maxaranguape no sentido de receber os pedidos de inscrição eleitoral de todos os eleitores do município, de Touros a Barra de Maxaranguape, conduzindo inclusive um fotografo para garantir a fotografia instantânea cumprindo desta feita com o que havia sido determinado pela Justiça Eleitoral naqueles anos de mudanças e inovações.

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta IX
Por: Lindonor Patriota

Para continuar com o trabalho eleitoral de distrito em distrito foi expedido uma portaria baixada pelo Juiz Eleitoral, então Dr. joaquim Arnoud Gomes Neto, onde era designado o escrivão eleitoral da decima quarta zona Lindonor Patriota do Nascimento e o escrivão do segundo Cartório, José Américo de Souza Grilo para receber os pedidos de inscrição eleitoral devidamente preenchido e assinado de próprio punho pelo eleitor. Para tanto também houve notificação aos delegados e fiscais dos partidos políticos da época, especialmente o fiscal da União Democrática Nacional - UDN, que em cumprimento ao que havia sido determinado pelo Juiz Eleitoral, se apresentaram, Pedro Guedes da Costa e Silva e Miguel Ribeiro Neri, respectivamente delegado e fiscal da União Democrática Nacional - UDN, que se fizeram presentes em todos os processos de alistamento em todos os distritos do município até Barra de Maxaranguape.

O alistamento começou pelo distrito de Perobas aonde foi instalado o alistamento eleitoral na residência do Sr. Tomaz Ferreira da Costa, então líder político local. Instalado como fomos no prédio da escola do distrito, houve grande mobilização com os eleitores que foram se alistar, no sentido de assim poder obter novos títulos, dessa vez com fotográfia e registro cívil. O serviço eleitoral de Perobas foi rápido, depois de meio dia de trabalho estava tudo terminado.

Seguimos então para o vizinho, então distrito de Rio do Fogo, aonde pernoitamos na casa do Sr. Elizeu Gomes Ribeiro nos instalando pela manhã na Colônia de Pescadores Z-3, que era o melhor local do distrito para que podessemos desenvolver o nosso trabalho. Os eleitores mobilizados pelos líderes políticos locais e fiscalizados pelos dois fiscais de partido que nos acompanhava durante todo o trabalho.

Por se tratar de um distrito maior que naquela época (1956), tinha cerca de 200 eleitores, o que era considerado para a época um bom reduto eleitoral, levando-se em consideração que exisita distritos com pouco mais de trinta eleitores naquela época. Para que podesse existir seção eleitoral no distrito, era preciso que houvesse mais de cinquenta eleitores, quando o número era menor que isso, aquela urna era incorporada a seção eleitoral mais próxima.

Dois dias depois fomos para Zumbi, distrito com pouco mais de oitenta votantes. Fomos recebidos pelo Sr. Antônio Cosme aonde terminamos ficando hospedados. Em Zumbi o trabalho de alistamento eleitoral demorou mais de um dia. Se hoje as estradas em boa parte são asfaltadas, naquela época mas existia estrada de barro, boa parte das estradas eram dentro do mato e para percorrer estas localidades só mesmo no jeep "Cambuin", pela beira da praia, não existia outra maneira de se chegar aos distritos senão pela orla maritima. O trabalho eleitoral era intenso e cansativo. Como não exisita energia elétrica no município nos anos cinquenta, o jeito era trabalhar com lamapdas de pressão Coleman, uma novidade para a época. As lampadas funcionavam a gasolina ou querosene e tinha uma luz bastante forte que permitia que o nosso trabalho podesse ser concluído mesmo durante a noite. Todo o resto da comunidade era iluminada a lamparina, e por volta das 18: horas as famílias já se encontravam recolhidas em suas casas, dormindo pois nada havia para fazer durante a noite.

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta X
Por: Lindonor Patriota

Dando continuidade ao assunto da edição passada, continuaremos a falar sobre o trabalho realizado em 1956, que foi a renovação de títulos e alistamento eleitoral da população brasileira. Salientando que até então o Título de Eleitor não utilizava fotografia, a partir do recadastramento o título eleitoral passou a utilizar a fotografia do eleitor e o requerimento passou a ser feito e assinado pelo próprio eleitor.

Durante os três dias que passamos trabalhando na Escola Rural de Maracajaú os eleitores iam comparecendo proporcionalmente, alguns deles trazidos pelos delegados da UDN, Pedro Costa e Miguel Ribeiro Neri, e os demais pelo vice-prefeito Neco Moreno e seu irmão Adalto Moreno. A fiscalização dos trabalhos era rigorosa por parte dos delegados da UDN, muitas vezes os eleitores mal sabiam escrever seu próprio nome, imagine preencher toda uma ficha de requerimento. Tínhamos que ter paciência e calma, uma vez que os eleitores de então eram pessoas rudes, sem o devido preparo. Mesmo aquelas completamente alfabetizadas, sentiam certa dificuldade em preencher o formulário que solicitava dados pessoais e documentos comprobatório da identidade eleitoral.

Houve uma passagem que gerou certo constrangimento, mas que depois virou piada entre os presentes. Um amigo e coreligionário do vice-prefeito Neco Moreno, solicitou uma caneta para preencher o requerimento eleitoral, como no resito estava faltando canetas, Neco Moreno foi obrigado a ceder a sua caneta de ouro, "Parquer 51", para que o amigo preechesse o formulário. Quando o eleitor de nome Júlio Santos escreveu um bonito "J" em cima de uma mesinha irregular, o bico da caneta pegou na fenda da mesa rasgando o papel e quebrando o bico. Neco Moreno saiu do sério e culpou o amigo pelo estrago a sua valiosa caneta de ouro. Muitos no entanto cairam na risada por achar a cena engraçada, principalmente pelo estado de humor de Neco Moreno, que se encontrava até então soridente e de um instante para o outro se mostrou enfurecido com o prejuízo.

Neste mesmo instante chega ao dito recinto Manoel Montenegro Soares, mais conhecido por "Oiô Soares", acompanhado do seu amigo Salatiel Laci Vieira que defendiam a bandeira de Café Filho, adversário de Neco Moreno, que ignorou o ocorrido e a todos os presentes. Na verdade era um político de muito pouca influência na epóca. Tanto é que Oiô Soares, tinha sido candidato a vereador pelo município de Touros, tendo alistado mais de cinquenta eleitores em Tabúa do Reduto, cujo eleitores votavam na seção eleitoral de Pureza, na epóca, distrito de Touros. Oiô, achava que seria eleito com floga, uma vez que naqueles tempos, pouco mais de cem votos assegurava uma vaga na Câmara Municipal. Quando abriram as urnas, Oiô Soares, obteve nada mais que 17 votos.

Metido a grande orador político, certa feita Oiô Soares falou em discurso em Touros, falou que "tinha amanhecido o dia com os passaros cantarolando, em volta de coqueiros verdejantes". Pouca gente entendeu o que ele quis dizer, uma vez que mais de 70% da população naquela epóca era constituída por analfabetos. Muitos indagavam a Oiô pelos seus muitos votos. Ele se limitava da dizer que "houve mesmo foi muita traição minha gente".

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta XI
Por: Lindonor Patriota

Em Caraubas o nosso trabalho de alistamento eleitoral foi realizado sem maiores problemas, uma vez que a paz reinante do lugar ajudou em muito. Durante a noite a conversa rolava até as 20:hs e depois todos iam dormir. Com a renovação eleitoral o número de eleitores aumentou bastante, uma vez que Ponta Gorda e Cabo de São Roque foram integrados a seção eleitoral de Caraubas.

Em seguida fomos para Barra de Maxaranguape, então último distrito de Touros ao Sul. Em Maxaranguape fomos recebidos pelo saudoso professor Germano Gregorio da Silva Neto, figura querida de toda a comunidade, homem responsável pela educação de todos. O professor Germano organizou nossas acomodações durante os três dias em que estivemos em Maxaranguape. Lá também recebemos a ajuda de Storssel de Brito, deputado estadual e veranista da praia, autor do projeto de criação do município de Barra de Maxaranguape que foi emancipado em 1958, portanto dois anos depois.

O alistamento eleitoral de Maxaranguape também transcorreu na calma. Algumas pessoas que mais tarde iriam ter participação ativa na vida do novo município como Abelardo Monteiro, que foi o primeiro prefeito constitucional de Maxaranguape, já andavam por lá na qualidade de veranista. Conversou muito sobre política e se mostrou muito cordato. Quando eleito, conseguiu realizar uma boa administração, conseguindo fazer o sucessor, Brigido Ferreira Pinto.

Depois disso Abelardo deixou a política por motivos de saúde, uma vez que foi acometido de problemas circulatórios tendo sido submetido a operação cardiaca no Rio de Janeiro. Sobreviveu oito anos, vindo a falecer do problema. Abelardo era funcionário da Receita Federal e tinha um número de amigos muito grande. Sua morte prematura abriu uma lacuna na política regional.

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta XII
Por: Lindonor Patriota

Dando continuidade ao alistamento e reforma eleitoral realizado em todo o país no ano de 1956, continuaremos relatando como se deu este processo no município de Touros. Depois que terminamos os trabalhos no município de Barra de Maxaranguape fomos para o então distrito de Pureza, que naquela época ainda pertencia a Touros. Pureza era o maior distrito do município, tendo grande importância política, uma vez que o Cel. Joel Cristino, que foi ex-prefeito de Touros tinha grande influência política local. Além do Cel. Joel, outros nomes de importância política como o Cel. Zacarias da Costa e Silva e Francisco Cucio também eram natural de Pureza e tinha ali uma forte base política.
Foi o Cel. Joel Cristino que inaugurou a primeira ponte de cimento armado sobre o rio Maceió em 1928. A inauguração foi destacada pelo principal órgão de imprensa da época, o jornal A República. A ponte fica no mesmo local que a atual, em frente a Matriz do Bom Jesus dos Navegantes e durante mais de quarenta anos serviu a comunidade.

Quando chegamos a Pureza fomos recebidos por dona Maria de Lurdes Câmara, filha de José Cândido da Câmara, prospero comerciante da localidade que mantinha uma panificadora. Eles é quem hospedavam as autoridades. Logo que chegamos fomos recepcionados por José Felinto de Medeiros, funcionário dos Correios, mas também era membro do Partido Social Democrata - PSD, e que também gozava de grande popularidade, homem de confiança do então prefeito, Antônio Severiano da Câmara.
Fomos então conduzidos para um salão público, aonde funcionava a escola estadual, uma vez que era o melhor espaço de então. Estavão também presentes em Pureza, Pedro Guedes da Costa e Silva, seu irmão Raimundo Guedes da Silva, grande comerciante local, além de Miguel Ribeiro Neri. Em Pureza passamos quase uma semana, uma vez que se tratava do maior distrito do município de Touros, que naquela época tinha o maior contigente eleitoral de Touros. Mesmo assim só funcionava uma única urna eleitoral. Depois do nosso trabalho Pureza passou a contar com três urnas, haja vista, que o número de eleitores aumentou bastante durante a revisão.

Em Caraubas o nosso trabalho de alistamento eleitoral foi realizado sem maiores problemas, uma vez que a paz reinante do lugar ajudou em muito. Durante a noite a conversa rolava até as 20:hs e depois todos iam dormir. Com a renovação eleitoral o número de eleitores aumentou bastante, uma vez que Ponta Gorda e Cabo de São Roque foram integrados a seção eleitoral de Caraubas.

O alistamento no entanto se tornou mais demorado em Pureza, porque várias localidades como Itabaiana, Jardim, Cururú e Paraiso, votavam em Pureza. Com isso uma única urna não dava mais conta do grande eleitorado local. O movimento na cidade foi intenso durante o alistamento eleitoral. Mas a exemplo dos demais distritos por onde passamos, em Pureza também não existia energia elétrica. Quando o trabalho se estendia, a iluminação era gerada através de lamparinas de gás.

O nosso trabalho em Pureza durante o longo período foi muito tranquilo, o mais calmo de todo o nosso trabalho, em parte por conta de José Felinto de Medeiros, vereador e liderança de destaque. Gozava de grande credibilidade entre toda a população, ele imprimiu um clima de cordialidade e harmonia desde o principio do nosso trabalho. José Felinto era cunhado de Miguel Neri, uma vez que dona Anita Neri era irmã de Miguel. Mas nem por isso eram tão amigos. Existia muita divergência entre os dois, que eram adversários políticos.

Durante muitas décadas o distrito de Pureza elegia sempre dois vereadores, José Felinto e Raimundo Guedes da Silva, foram eleitos representantes de Pureza durante muitos anos. No inicio da década de sessenta, Pureza se desmembrou de Touros, tornando-se município. O cel. Onofre Soares Jr. foi o primeiro prefeito eleito.

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta XIII
Por: Lindonor Patriota


Mesmo desmembrado do município de Touros, Pureza ficou agregado judiciariamente à Touros. Todos os processos civis e criminais continuaram sobre a responsabilidade do Juiz da Comarca de Touros, que na época era Dr. João de Oliveira depois substituído pelo Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres, que por aqui permaneceu até meados da década de setenta, tendo sido transferido para Canguaretama e em seguida aposentado. A escola municipal Junqueira Ayres, de Touros leva seu nome em uma justa homenagem.
Mesmo tendo um cartório em funcionamento desde a década de cinqüenta, o mesmo não tinha competência para efetuar expedientes de natureza judicial e eleitoral. Quase tudo era através do Cartório de Touros, que tinha como titular o Tabelião Júlio Maria do Nascimento, embora a competência para este trabalho eleitoral era de competência do Juiz de Direito da Comarca de Touros.

Durante muitas décadas as apurações eleitorais foram realizadas em Touros. Isto se estendeu até 2000, quando o município de Pureza passou a ser incorporado a Comarca de Ceará-Mirim, o que em muito desafogou o trabalho antes realizado em Touros. Além do mais a apuração eleitoral passou a ser realizada eletronicamente o que facilitou bastante o trabalho, agilizando a contagem dos votos que até poucos anos era realizada manualmente com ajuda de fiscais e escrutinadores da Junta Apuradora Eleitoral.

O Código de Organização Judiciária do Estado, em sua nova redação incorporou também o então distrito de Rio do Fogo, que foi elevado a categoria de município, embora continue agregado judicialmente a Comarca de Ceará-Mirim. A criação do município de Pureza só foi possível através de um acordo do Major Onofre Soares Júnior, na sua qualidade de proprietário da área urbana da cidade, uma vez que era dono de toda a área urbana do então município e boa parte da área rural. O Major Onofre Soares, abriu mão de toda essa extensão e por reconhecimento geral foi nomeado o primeiro prefeito do novo município de Pureza, pelo então governador Aluízio Alves. O Major Onofre Soares era um homem muito poderoso, como também um homem de visão. Foi graças ao seu despojamento que nasceu o município de Pureza, antes um importante distrito do município de Touros.

Mesmo depois que deixou a prefeitura de Pureza, o Major Onofre Soares continuou tendo forte participação política no município. Tinha também muita influência política em Ceará-Mirim, aonde residia em belo casarão no centro da cidade. Era muito ligado ao industrial Odilon Ribeiro Coutinho a quem sempre apoiou em várias campanhas políticas.

Aluizista da velha guarda, manteve-se fiel a família Alves até o fim da vida. Era marca registrada sua o uso de um lenço verde enrolado no pescoço, em alusão a Aluízio Alves.
Mesmo com toda força e influência política, o Major Onofre Soares enfrentava uma oposição forte por parte de João Gomes, então funcionário dos Correios que caiu na graça do povo de Pureza. Denunciado por adversários políticos foi alvo de perseguição pelo Exército, durante o arbítrio militar. Sua residência foi invadida por soldados, mas nada ficou provado contra a sua pessoa. Foi acusado de estar armazenando armas em sua casa para fazer uma revolução juntamente com os temidos "comunistas" daqueles tempos de ditadura.

Mesmo sem qualquer prova contra a sua pessoa, João Gomes ficou muito prejudicado com a boataria e terminou perdendo a campanha eleitoral de Pureza por conta dessa falsa denuncia contra a sua pessoa. Por muito pouco não perdeu o emprego. Depois desse fato foi transferido para Natal e deixou a vida política de vez.
João Gomes era muito ligado ao ex-prefeito Jose Américo e em muito ajudou na campanha de Touros. Sempre amigo e leal, João Gomes depois que foi transferido para Natal, saiu da região bastante decepcionado e nunca mais retornou a Pureza ou Touros para rever os muitos amigos e correligionários que deixou por aqui.

*Lindonor Patriota é Tabelião aposentado
 do primeiro Ofício de Notas de Touros

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta XIV
Por: Lindonor Patriota


Continuando com o assunto da edição passada, falaremos agora sobre o distrito de São José de Touros, ainda na década de quarenta em plena adolescência. Me recordo que eu ia com papai (tabelião Julio Marai), e outros familiares para uma festa em São Miguel do Gostoso. Fomos para a casa de uma tia, Francisca Izufira Vital, esposa de Zazinho Nicolau. Quando chegamos em São José paramos junto a capela, o distrito tinha uma única rua, bastante arenosa. Naquela época não existia estrada até lá, fomos a cavalo, uma vez que nenhum veículo circulava por alí.

O distrito me passou a impressão de abandono, não existia quase nada, algumas casas de taipa e se não me engano uma mercearia, que pertencia a família Tarquino. Depois dessa passagem por São José, voltei tempos depois mais uma vez junto com papai, dessa vez ele tinha sido convocado para realizar alguns casamentos naquela localidade. Naquela época era comum se realizar vários casamentos num mesmo dia, uma vez que era complicado demais o acesso de quem quer que fosse até o distrito.

Ficamos hospedados na casa de José Raimundo, mais conhecido por "Senhor", era ele quem organizava a festa do padroeiro do distrito. Chegamos em São José na tarde do dia 18 de março de 1947, a iluminação da igreja era toda feita em carboreto, e na longa rua existiam alguns fachos de madeira que ficavam queimando até acabar. Isso me chamou a atenção porque em Touros a iluminação já era realizada a motor diesel.

A noite foi realizado a festa do padroeiro São José, aonde participei juntamente com papai e alguns amigos dele. Vinha gente de todas as localidades vizinhas e me recordo que até de Parazinho vinha gente para prestigiar o evento festivo e religioso. Sei que durante a festa chegou um jeep, já durante a noite, aquilo era uma grande novidade, porque outro carro não tinha condição de chegar até alí, primeiro que não existia estrada e segundo que mesmo pela beira da praia a maré cheia e os obstaculos no meio do caminho não dava acesso.

Depois do tradicional leilão tinha destaque o baile, animado pela Banda de Música de Touros. Muitas famílias do lugar prestigiavam o baile que se estendia até a manhã. Neste baile tinha sempre a presença do "mestre sala", Simpliciom que tomava a frente do baile e arrecadava o dinheiro dos presentes. Era também Simplicio o por assim dizer "abre salão", o seja, o primeiro a dançar, muito bem vestido de terno e gravata, sabia dançar muito bem e estimulava todos os presentes a entrarem no salão para dançar durante toda a noite. Me recordo que as pessoas se vestiam muito bem, ninguém entrava no salão sem um belo terno, diferente de hoje que as pessoas vão para os bailes até mesmo de bermuda e camiseta.

Durante o baile algumas pessoas passavam por constrangimento. Quando entrava uma pessoa estranha o desconhecida da comunidade no baile, o "mestre sala", imediatamente ordenava que a orquestra desse uma pausa para que o visitante fosse identificado, oportunidade que Simplicio cobrava a cota do visitante. Só depois a orquestra voltava a tocar e o baile seguia seu rumo. Simplicio também observava os casais que estavam dançando com mais liberdade. Na verdade ele tomava a frente de todo o baile, tanto da organização como do comportamento dos convidados, era quase um segurança, que a tudo obervava, com a única preocupação em manter a ordem e disciplina do festejo.

No dia seguinte, 19 de março, dia de São José, chegavam os noivos, todos a cavalo, era um verdadeiro desfile, as pessoas saiam de casa para ver o desfile, noivos e noivas, todos muito animados esperando o momento do casamento cívil e religioso, que eram realizados juntos. Boa parte das noivas já chegavam ao distrito vestidas, com belos vestidos brancos, outras preferiam se vestir momentos antes do casamento, temendo a tradição que reza que o noivo não deve ver a noiva vestida antes do casamento, mas poucos eram os noivos que se importavam com isso, a grande maioria das noivas já chegavam prontas para o esperado e sonhado casamento. Era uma coisa muito bonita de se ver.

*Lindonor Patriota é Tabelião aposentado
do Primeiro Ofício de Notas de Touros

MEMÓRIA
A justiça nos anos quarenta XV
Por: Lindonor Patriota


Dando continuidade ao assunto da coluna passada quando falamos sobre o distrito de São José de Touros, me vem a mente que durante os festejos ocorridos naquele distrito no idos da década de quarenta, a casa que hospedada os convidados epeciais e autoridades era a residência de João Raimundo, mais conhecido por "Sinhô". Ele acolhia a todos com grande amizade. Sua casa era grande e de grande alpendre, os que não conseguiam uma acomodação no interior da casa tinham que se contentar com uma rede nos alpendres. Quando a festa era grande, como a festa do padroeiro São José, sua casa ficava lotada, além dos parentes, os muitos amigos e as autoridades que vinham de Touros, terminavam por ficar hospedado na casa de "Sinhô".

Homem de situação econômica boa, João Raimundo hospedava também os componentes da banda de música de Touros. Também era responsável pela alimentação de todos os seus hospedes. Era "Sinhô", que organizava a festa do padroeiro e quem também se encarregava da sua boa divulgação, para tanto chamava todos os amigos que conhecia e pedia aos seus amigos que fizessem o mesmo.

Em uma das festas realizadas pela passagem do padroeiro, "Sinhô", mandou um dos muitos "nadarilhos", que existiam pelo litoral ir a capital para comprar fogos, uma vez que por essas paragens não existia nenum tipo de fogos a venda. Me recordo que em menos de vinte e quatro horas o andarilho estava de volta com os fogos, chegou minutos antes do inicio do novenário, fato que causou grande admiração nos presentes. É bom lembrar que naquela época não existia transporte regular para Natal, apenas um velho ônibus, conhecido como a "Sopa do seu Daniel", fazia essa viagem duas vezes por mês, então logo se nota a grande dificuldade que era em plena década de quarenta chegar até a capital do Estado. Sendo assim existiam os "andarilhos", homens acostumados ao trabalho duro, que iam a pé até Natal para comprar objetos. Naquela época era comum um andarilho ir até Natal ou outra cidade para comprar objetos ou mesmo entregar uma encomenda.

A Banda de Música de Touros, hoje "Tabelião Julio Maria, se fazia presente a quase todas as festas realizadas em São José. naquela época a banda era composta pelos seguintes componentes: Julio Maria, José Lopes de Oliveira, Francisco Rodrigues de Oliveira, Isac Paulino de Oliveira, Deucleciano Fagundes do Nascimento, Izau Antunes de Melo, Etevaldo Henrique do Nascimento e José Antunes de Melo. Era uma beleza a banda de então, os seus componentes saiam pelas ruas tocando e despertando a atenção dos populares que saiam as ruas para festejar e se admirar com a banda.

Nessa mesma época, em plena Segunda Guerra Mundial, passou por São José a postiação de uma linha telefônica que pretendia chegar até São bento do Norte. O serviço foi realizado pelo exército e não chegou a São Miguel do Gostoso, de toda forma São José terminou sendo beneficiado com o serviço que funcionou até o final da guerra, depois disso a população se encarregou de tirar os fios, e os postes de madeira foram arrancados para se transformarem em lenha, já que os postes eram de madeira de boa qualidade. Me recordo que os postes eram bem grossos e deviam ter pouco mais que seis metros de altura. Acredito que hoje, poucas são as pessoas que se recordem desse importante serviço telefônico que beneficiou aquela comunidade por alguns anos.

Em 1945, em plena campanha política ainda garoto, fui juntamente com meu pai realizar o serviço de entrega de título de eleitor, naquela época era assim, pois existia grande dificuldade de transportes, e não adiantava enviar para as agências de Correios, poucas naquela época, que os eleitores não tinham como ira pegar o título por falta de transporte. Na verdade se vivia muito isolado do tudo, principalmente porque além de não existir transportes, as estradas eram precárias demais, verdadeiros sucos de areia que só mesmo jeep e alguns ônibus conseguiam transpor, e mesmo assim com muita dificuldade. Essa realidade só mudou nos anos oitenta.

*Lindonor Patriota é Tabelião aposentado 
 do Primeiro Ofício de Notas de Touros

  ARQUIVO VIVO PARTE 6 

 

 


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