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MEMÓRIA
Dr. Orlando Flávio Junqueira
Ayres e seu legado educacional

Dr. Orlando queria uma sociedade melhor e mais justa

Dr. Orlando na sala de aula em Touros no inicio da década de 70Maria Antônia Teixeira da Costa
Profa. da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte

No período de 16 a 19 de setembro de 2010, estive em Recife para participar de um Congresso Internacional e lá fui recebida na residência do casal Dona Djalmira Santiago Junqueira Ayres, ex-professora de Língua Portuguesa e de Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres, meu ex-professor de Inglês, e primeiro diretor do Ginásio Comercial de Touros. Reencontrei pessoas que fizeram parte da minha vida e fiquei muito feliz. Nesta oportunidade, solicitei a realização de uma entrevista e o prof. Orlando me concedeu na noite de 18 de setembro de 2010, o que me deixou bastante orgulhosa de poder conversar e reavivar as minhas lembranças de uma adolescente de 13 anos, por volta do ano de 1975, quando fui sua aluna e prestar uma homenagem ao precursor da idéia da criação de um ginásio na cidade de Touros/RN. Até esta época o maior nível de ensino era o primário, o qual com a Lei 5.692 de 1971 passou a ser chamado de 1º grau menor e a partir de 1996, com a Lei 9.394/96, corresponde aos primeiros anos do Ensino Fundamental.

A criação do Ginásio Comercial de Touros (Hoje é chamado de Escola Municipal Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres) foi possível com uma solicitação do Dr. Orlando ao prefeito da cidade de Touros em 1969, Senhor José Joaquim do Nascimento. Dr. Orlando disse-me na entrevista que morava em Porto Alegre, próximo a Pau dos Ferros na Região Oeste Potiguar e fez concurso para Juiz. Ele foi aprovado e logo nomeado para Touros em 1969, mas só iria se o então prefeito criasse o Ginásio.

O Ginásio Comercial de Touros foi criado através da lei Municipal nº 86/69. Foi autorizado pela Portaria 91/1970 e reconhecido pela Portaria nº 245/82 da Secretaria de Educação e Cultura. O Ginásio teve seu primeiro ano de funcionamento em 1970, porém o prédio ainda estava em construção por isso funcionava no Grupo Escolar Coronel Antônio do Lago. Na Colônia dos Pescadores situada á Rua prefeito José Américo o professor Orlando ministrava aulas preparatória para o exame do Admissão, exigência para o ingresso no ginásio.

Mas quem é este homem que chegou em Touros e deu sua grande contribuição a educação do povo tourense? Onde ele nasceu? Quais eram os seus sonhos? Quais suas realizações? Do que eu recordo-me, naqueles anos, final dos anos de 1960, ele era o homem mais inteligente que eu havia conhecido. Ele falava inglês fluentemente, falava francês, era um homem educado e amava os pescadores. Se ele tinha defeitos? Eu não me lembro, sei apenas que todos nós temos as nossas dificuldades, todos estamos aprendendo nesta escola chamada vida. Erramos, aprendemos e assim vamos progredindo como espíritos imortais.

O Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres, nasceu em 26 de fevereiro de 1932, na cidade de Caetité, Estado da Bahia. Foi o 4º filho da família Junqueira Ayres. Filho de José Francisco, professor de Agricultura da Escola Normal de Caetité e de uma quituteira chamada Hilda Gomes Junqueira Ayres.

Com a mãe ele diz que aprendeu o olhar indicativo do sim e do não. Com o pai aprendeu a fé nos estudos, confiança em si mesmo e respeito aos mais velhos. Aprendeu uma das melhores coisas da vida. Por exemplo:que quando houvesse confusão na rua ele fosse para casa, e quase nunca atendeu a isto.
O seu pai, conforme a narrativa de Dr. Orlando fez concurso para a Escola de Agronomia e passou em primeiro lugar para a disciplina Agricultura e Genética. Ele era muito querido pelos alunos. Fazia muita experiência genética na escola de Agronomia. Era magrinho, pequeno, mas muito inteligente.
Professor Orlando iniciou o seu Primário aos 08 anos de idade,em Cruz das Almas no Estado da Bahia. Depois seu pai continuou morando em Cruz das Almas e os filhos foram terminar os estudos em Salvador. Foram morar da na casa da Avó em Salvador e estudaram no Ginásio no Arão Carneiro, era escola Primária onde terminou os estudos.

E depois foi para o Ginásio Carneiro Ribeiro. Carneiro Ribeiro era autor de “Serões Gramaticais”, obra resultado de grande polêmica de Carneiro Ribeiro com Rui Barbosa. São as palavras de Dr. Orlando sobre a cidade onde passou a infância: “Cruz das Almas tinha a Liberdade da vida, da gente como criança. Indo e voltando.A gente pegava passarinho, coelho e preá, criava sabiá.Gonçalves Dias tinha uma poesia Canção do Exílio que eu gostava muito. E por isso gostava das sabiás. O pessoal do tráfico de aves leva muitos sabiás para o exterior. Meu pai numa carta que escreveu para mamãe disse: Cruz das Almas é um céu aberto para as crianças. Nossa casa era aberta aos professores, vivia sempre cheia de professores, pois ele era mais velho e tinha muita experiência era moderado e prudente.”

Após falar o quanto gostava das sabiás, Dr Orlando recitou para mim a poesia de Gonçalves Dias, intitulado “ Canção do Exílio” . Segue um pequeno trecho da poesia:
“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
[...]
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá”

Após recitar a poesia, o Dr Orlando pergunta: “Será que ainda existe Sabiá? Brinquedos como os que brinquei na infância, quase não existem mais”. Diz ele.

Entre as brincadeiras de sua infância ele citou: Picula, chamada de pega-pega em Pernambuco; chicotinho queimado – o chicotinho era escondido e o menino que achasse danava chicotada em todo mundo; Guerra guerrô – Meninos correndo uns contra os outros, bairros da Liberdade contra bairro da Lapinha e Barbalho. A brincadeira ia até 10 horas da noite. E não podia chegar com a roupa rasgada ou o botão caído, que o castigo de sua mãe era que consertasse o que foi estragado.

Na pré – adolescência, ele nos contou que gostava de brincar de anel. “A moça que a gente queria namorar largava o anel na mão dela”, falou-me ele com um sorriso no rosto.
Outra coisa que marcou a sua vida foi que dos 16 para os 17 anos resolveu com seus colegas construir um barco azul, vermelho e branco. O barco tinha o nome de “Argonauta”. A vela era feita com lençóis tirados da sua casa.

Ladeira da montanha. Dividia a cidade alta da cidade baixa. Ladeira do inferno . Desceram com o barco. Passaram por um pescador antigo. Perguntou o velho pescador: “Meninos para onde vão com esse barco. Cuidado com as rotas do navio”

Eram três os meninos: Bau, Nozinha, Clóvis e Drorlando. O Barco foi para o alto mar.
Diz Dr Orlando: “Navegamos até adormecermos sob o sol quentinho. Quando acordamos foi ao lado de um navio gigantesco. Socorro, socorro!. Quando o navio passou bem perto, pensávamos que ia bater na gente. O barco virou e os quatro foram para o mar. Jogaram cordas e boias e resgataram os quatro.
O povo do navio não era brasileiro e pelo que ele entendeu deram um carão nos meninos. Telefonaram para o Juizado de menor. Os parentes dos seus colegas foram buscá-los e ele se não fosse seu tio que era professor de Música da Universidade teria ficado por lá. Quando ele chegou para lhe pegar seu tio disse: “que maluquice é essa cabo? Como lhe chamavam e ainda hoje assim o chamam, na Bahia.

O Barco foi construído no quintal da casa da avó de Dr. Orlando, numa casinha de zinco. “Meu tio disse, eu vou chamar sua mãe, que isso é muito grave e você não obedece a mamãe, minha vó era mãe dele. Mamãe chegou e disse que se eu não obedecesse ela ia me levar de volta para o interior para plantar cana, algodão. Eu prometi que não iria mais fazer isso. Eu tinha 16 ou 17 anos.(fala do Dr. Orlando).
O Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres teve cinco irmãos: Dulce Maria Junqueira Ayres Aires Totó, que era o apelido de Carlos Mariano; Gipson José, Fiscal Agrícola do Banco do Brasil; Newton Emanuel, funcionário do fomento agrícola do Ministério da Agricultura; Edmundo Estácio – trabalhava como Técnico em Laticínios;

Contou-me outro caso engraçado que aconteceu quando morava em Cruz das Almas. Sua mãe não gostava que ele fosse dormir fora de casa. Uns amigos lhe chamaram e ele não sabia que ficava dois quilômetros de distância de sua casa. Cada um contando histórias, o tempo foi passando, deu 11 horas da noite e ele não foi para casa. “Cabo não vá para casa que é perigoso”. Disse-lhe um colega. Ele respondeu: “Eu disse: eu vou, se eu não chegar em casa vou ter castigo de mamãe”. E ele ficou na cancela esperando alguém para que ele pudesse acompanhar. Até que enfim veio um homem montado a cavalo. E ele foi devagarzinho atrás deste homem montado a cavalo para que o homem não o visse. Narra Dr. Orlando: “Os meninos quando eu falei que iria embora disserem que a alma de um bandido estava feito um urubu gigante. E quando as pessoas passavam lá embaixo o urubu agarrava. E eu acompanhando a certa distância. Quando embaixo de onde o tal urubu ficava eu vi aquele vôo, eu danei uma carreira e a coisa veio correndo atrás de mim. Quando eu ouvi, cabo, cabo, sou eu. Eu pensei: e a alma sabe o meu nome. Era um empregado lá de casa e disse que meu pai havia mandado me pegar”
Neste período ele cita que andava no meio dos valentões e queria ser um deles, com uso de faca, cacumbu (faca pequena), jogava capoeira e lutava capoeira e era bom. Ele relata que tem uma música de capoeira feita por ele sobre, que diz assim:

“Digungar, digunguer , capoeira é prá valer (repete duas vezes)
Perto aqui da cidade,
Eu sou lá da liberdade, homem de vontade
digungar, digunguer , capoeira é prá valer (repete duas vezes)
Berimbau na sete cordas
E cachaça lá em Brotas
O meu nome é vida torta.

Essa música intitulada Digungá Digunguê, é em homenagem a um dos homens que dançava capoeira, chamado vulgarmente de Vida Torta”
Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres terminou o ginásio e o clássico aos 18 anos no Carneiro Ribeiro. Todos os irmãos já estudavam na Faculdade. Eles eram mais velhos que ele. O seu pai queria que ele fizesse Agronomia, porém ele criou coragem e disse ao pai dele que não iria fazer e ele lhe perguntou:“E você quer fazer o quê?

Tinha o curso de Direito em Salvador, mas o de Recife era muito famoso e ele queria fazer lá. Fez o vestibular para o curso de Direito em Recife, que hoje é Faculdade de Direito. Pegou o Navio Itaguatiara – empresa. O pai não soube que tinha ido para Recife e com um dinheiro que o pai havia lhe dado e ele guardou, pagou suas necessidades básicas. Morou aos 22 anos de idade na Pensão na Rua dos Prazeres no Bairro Boa Vista, em Recife. Foi nesta rua onde conheceu Djalmira Santiago.

Em Recife na Faculdade de Direito foram seus professores: Luiz Pinto Ferreira; Claudio Souto; Claudio Germano. Eram três turmas: manhã, tarde e noite. Era o ano de 1954. As exigências eram grandes, se não tirasse 7,0 ficava em recuperação e as exigências aumentavam. Narra Dr. Orlando: “Então formamos uma turma boa, uma das melhores que a Faculdade teve. Eu era um aluno da esquerda contra os alunos de direita. Sempre fui de esquerda. E o presidente da República era João Goulart e o governador era Arraes. Na época reinava um regime que culminou na Revolução de 1964”.

A maioria do pessoal da esquerda era de engenharia e medicina. Marco Marciel era seu amigo da Faculdade, mas estava do outro lado. Era seu adversário político. Dom Elder era proibido de falar. “ser da esquerda era o mesmo que ser comunista.“Eu dizia: eu não tenho nada a proteger, não tenho propriedade então eu sou comunista” (Fala do Dr. Orlando) Tinha tendência política, porém desistiu devido ao movimento militar.

Casou em 1960 com Djalmira. Casaram quando ele era estudante ainda. Com a permissão de toda a faculdade. E diz que estava sem dinheiro, não podia pedir mais dinheiro ao seu pai. Dona Djalmira para ele era a moça bonita mais bonita que havia conhecido. Fez Concurso para promotor aos 29 anos de idade, em 1961.

Trabalhava em Porto Alegre, perto de Pau dos Ferros/RN como promotor e era professor de Educação Física no Ginásio. Em 1964 foi acusado de tentar fazer a reforma agrária, de fazer discurso subversivo em Praça em Pau dos Ferros. Respondeu inquérito policial militar.

Como sabemos em 1964 é instalado no Brasil a Ditadura Militar, a qual dura 20 anos quando dezenas de homens e mulheres brasileiros foram perseguidos, presos, mortos, reprimidos em seus ideais. Quem pensasse diferente do regime sofria todo tipo de represália. Em 1969 faz concurso para Juiz sendo nomeado para Touros e é onde começa toda uma história de dedicação a esta cidade. Lá viveu com sua esposa e filhos: Ana Patrícia Junqueira Ayres; Sofia Junqueira Ayres, Valéria Junqueira Ayres, Flávio Emanuel Junqueira Ayres, Peônia Junqueira Ayres e Constância Flavia Junqueira Ayres.

Em Touros ele organizava festividades na cidade, como as quadrilhas juninas, o carnaval; o coral do Ginásio, que participava em festivais, o desfile 7 de Setembro, com peças teatrais com a ajuda de D. Djalmira.

Ele era professor e gostava de ser professor, e era muito respeitado; segundo Luiz Penha, em suas palavras na rede, por iniciativa do Juiz de Direito da Comarca de Touros, Dr. Orlando Flávio Junqueira Ayres, foi criada, durante a administração do Prefeito José Joaquim do Nascimento, a bandeira do nosso Município, no dia 23 de março de 1970.

A família permaneceu em Touros até o ano de 1974, quando D. Djalmira que era funcionária Pública do Estado de Pernambuco, precisou retomar suas funções no cargo que exercia no Estado. A partir de então os filhos de Dr. Orlando, passaram a morar em Recife, vindo o mesmo se juntar à família definitivamente após sua aposentadoria. Até então Dr. Orlando viajava à Recife toda semana, nos finais de semana para ficar com a família.

Hoje o Prof. Orlando Flávio Junqueira Ayres ainda gosta muito de Touros e de seus pescadores, tanto que publicou recentemente um livro, baseado em algumas estórias extraídas das conversas com esses pescadores, intitulado “Academia do Poste” dedicado aos pescadores de Touros.

Dr. Orlando pensava diferente. Ele era um homem que queria uma sociedade mais justa, mais igual e lutou por seu ideal. Deu inúmeras contribuições ao povo tourense deixando-nos um grande legado educacional, portanto merece a nossa gratidão.

  ARQUIVO VIVO PARTE 23 

 

 


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