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MEMÓRIA
Lembranças de Touros nos anos 1970
Nos anos de 1970 Touros era apenas uma pequena cidade do RN

Pic-nic em Touros no inicio da década de 1970Por: Maria Antônia Teixeira da Costa //
folha.domatogrande@globo.com

A educação, como diz o sociólogo francês, Émile Durkheim é um processo de socialização em que as gerações mais velhas transmitem para as gerações mais novas os valores, as normas a forma de viver de uma sociedade. Nesse sentido, ela acontece em todos os espaços sociais. Partindo desta definição, perguntamos: como as mulheres tourenses, os pais, em pleno século XXI, educam seus filhos? E nos anos de 1970, como educavam? Como está e vive hoje a infância e adolescência em Touros? Que brincadeiras as crianças realizam?

Pensando nestas questões recordarei minha infância e parte da adolescência vivida em Touros nos anos de 1970. Reportar-me-ei também a educadora e mãe que sou.

Nos anos de 1970, Touros era uma pequena cidade interiorana, com um povo de costumes brejeiros e a meu ver valores inestimáveis: amizade, respeito, solidariedade, sinceridade, honestidade, os quais não os encontramos em evidência nos anos 2009 deste século XXI. Nos anos de 1970, distante da Capital por mais de 04 horas de viagem de ônibus, as coisas demoravam a chegar à cidade. O ônibus de seu Antônio Inácio saia às 04h00min horas da manhã de Touros, por volta das 05h00min estava chegando a Boa-Cica para tomarmos um gostoso café na barraca de Dona Cecília, no pequeno mercado. Por volta das nove horas da manhã, se o ônibus não quebrasse, chegávamos a Natal. O motorista do ônibus dizia: “Vamos parar e tomar um cafezinho”. Depois do município de Pureza, seu Antônio, o motorista, dizia: “vamos apanhar mangaba”. Vocês estão entendendo, o que significa? Apanhar mangabas era atender as necessidades fisiológicas perto dos pés de mangaba.

Para se ter uma idéia nós comíamos maçã quando mamãe ou vovó viajava e trazia de Natal; tomávamos guaraná com biscoito quando estávamos doente. Diferente de hoje, com a globalização, as mercadorias circulam com a velocidade extraordinária, ou seja, você pode comprar ou adquirir produtos produzidos na China, no Japão em qualquer cidade do país, em pequenas cidades.

A televisão era um bem de luxo, apenas umas cinco pessoas de Touros possuíam uma televisão em casa. Lembro-me que um dos poucos canais que pegava era a TV Educativa e nesta assistimos a copa de 1974. O programa exibido para as crianças era Vila Sésamo, em preto e branco. As lojas que vendiam tecidos ou roupas eram a loja de Joaquim Gomes e a Maré Mansa, que ao lado do mercado em uma banca e com um microfone anunciava as mercadorias. Não tínhamos supermercados, nem lojas de móveis, nem bancos, nem bancas de revistas, nem internet, nem jornal, nem emissoras de rádio. De escolas tínhamos o Grupo Escolar Cel. Antônio do Lago, e o Ginásio Comercial de Touros (hoje Escola Dr. Orlando Flávio Junqueira Aires) que teve o primeiro ano de funcionamento em 1970.

Na década de 1970, as mães que conheci, além da minha, ensinavam aos filhos a respeitarem os mais velhos, a cederem o lugar para eles sentarem, a segurarem em suas mãos para atravessarem às ruas. Não poderíamos participar da conversa dos mais velhos, no caso, quando a nossa mãe recebia visita, nós não participávamos da conversa, como muitos filhos fazem hoje, inclusive, na maioria das vezes desmentindo a mãe.

A juventude que morava às ruas localizadas no centro da cidade, tais como Rua Pedro II, Cel. Antônio Antunes, Av. Prefeito José Américo, se reunia na calçada do antigo Samburá, era um Clube de propriedade de Dona Ivonete, casado com seu João, como não tenho os nomes completos deles, digo que são os pais de Ana, Zé Antônio e Didi. O Samburá era um Clube situado á Rua Cel. Antônio Antunes, de frente para a Caixa d’água. Nesta reunião cada um mostrava suas habilidades, alguns tocavam violão, outros cantavam, outros ainda contavam piadas, ouvíamos músicas e conversávamos banalidades e coisas sérias.. Drogas como a maconha era um bicho papão para nós, apesar de sabermos que muitos jovens nas grandes cidades, nesses anos aderiram à maconha.

Brincávamos de casinha com bonecas de pano e os utensílios como panelas, de barro. Fazíamos cozinhado. Um dos cozinhados que relembro, foi realizado na casa de Gorete Patriota, filha de Lindonor Patriota, nas férias de 1977. Preparamos a comida durante a noite e no dia seguinte fizemos o cozinhado. Noinho, (Lindonor Patriota Júnior) e Roberto Patriota, não estavam participando e começaram a jogar pedra em cima da cozinha. Após serem repreendidos pararam de jogar as pedras.

Nas noites de lua cheia, à Rua Pedro II, nós brincávamos de roda, entre as canções citamos: o cravo e a rosa, atirei o pau no gato, escravos de Jô, senhora dona arcanja (Sancha). Essas brincadeiras eram transmitidas para nós através das nossas professoras do ensino primário, e também dos nossos pais e mães. Hoje em dia, não posso afirmar se ainda fazem parte das lições das professoras e dos pais e mães tourenses. Porém afirmo com toda veemência, importância das brincadeiras infantis para a educação de um adulto feliz.

As brincadeiras de meninos e meninas eram: esconde- esconde, pula corda, policia e ladrão, passa anel, batata quente, amarelinha, cabeção, conhecido pelo nome de amarelinha. São uns quadrados desenhados no chão e após marcar um deles só se pode pular em cima dos demais um por vez.

“Tô no poço” era outra brincadeira em que os meninos, já adolescentes encontravam uma desculpa para dar um cheiro na menina que estava paquerando. Porém como ele ficava de olhos fechados não tinha certeza para qual pessoa com a qual poderia dar um aperto de mão, ou um passeio, ou um beijo estava apontando (que era no rosto), o negócio era fazer por onde acertar a menina, na hora em que se perguntava, é essa? É essa?

Para a adolescência, citamos os assustados, eu não participei, mas Marcondes Moreira do Nascimento nos relata que era uma festa com som a base de uma radiola, às vezes de pilha, e com aqueles discos enormes. Reuniam uma turma de moças e rapazes e iam dançar. Minhas irmãs, Maria Alécia e Maria Auxiliadora, participaram.

As festas eram realizadas no Samburá e no Clube Municipal da cidade, onde é hoje o Centro de Turismo, além de outros espaços, como a Quadra do Grupo Escolar que era localizada ao lado do prédio. Festividades eram realizadas conforme as datas: em janeiro, a procissão do Bom Jesus dos Navegantes, evento marcante e respeitado pela população; em fevereiro, o carnaval: assistíamos o bloco organizado por seu Cícero Raimundo da Silva (Cícero Pinico); saíamos no bloco, o Caramujo, organizado por Dona Ivonete, “o urso” de seu Belchior; em junho as festas juninas, e assim seguíamos os cursos do calendário anual.

Reviver estas lembranças constitui um momento de saudades. Conto essas memórias, pois sei que um dia talvez sirvam para alguém falar do que viveu baseado nelas, para preservar a cultura de um povo praieiro, de um tempo em que a infância era mais vivida. Se existia o trabalho infantil nos anos de 1970 em Touros, não podemos negar, mas eu, graças a deus não o conheci. O lugar da criança é na escola, e brincar, viver uma etapa da vida que não volta mais.

O que fazem as nossas crianças tourenses, hoje, 27 de setembro de 2009? Soube através de conversas que elas precisam de mais atenção por parte das autoridades; que muitas crianças trabalham nas ruas; que elas não têm espaço, não tem opção na cidade para as brincadeiras; que não há uma preocupação por parte de certas famílias sobre o que fazem ou deixam de fazer os seus filhos; que alguns adolescentes caminham para os vícios e a prostituição. Tudo isso provoca em mim uma grande tristeza.

E assim, eu me pergunto: quais os espaços e as condições que são encontradas nas escolas, nos projetos educacionais (caso eles existam) para o desenvolvimento das brincadeiras para a infância? Como tem sido tratada a brincadeira na escola? O que tem acontecido aos nossos adolescentes?

Quem sabe, este meu reviver sobre a infância e adolescência em Touros nos anos de 1970 e a sua socialização através da Folha do Mato Grande, permita que as autoridades locais reflitam sobre tudo isso; que as professores, educadoras considerem a necessidade das brincadeiras em sua ação pedagógica? Quem sabe?

  ARQUIVO VIVO PARTE 17 

 

 


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