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MEMÓRIA
Há 85 anos dois pilotos italianos
aterrissavam na praia de Touros

Del Prete e Ferrarin batiam o maior recorde da aviação

Resgate do avião Savoia na orla de Touros, em foto de 1928, é lembrado ainda hoje por testemunhas oculares

Por: Carlos Sousa //
Roberto Patriota

Eles eram destemidos, verdadeiros heróis do seu tempo. Para viver sua paixão com a máxima intensidade, colocavam-se à prova, enfrentando desafios nunca antes ousados. Eles foram heróicos e inscreveram de forma indelével seu nome na história dos grandes pioneiros. Mesmo assim, estão quase esquecidos. Há 85 anos, porém, no dia 5 de julho de 1928, realizaram pouso forçado em Touros, Após passar sobre Natal, chovia torrencialmente sobre a cidade, uma aparente desorientação fez o S.64 pousar forçadamente na orla de Touros, terminando por realizar pouso na hoje denominada "Lagoa do Avião" na orla tourense.

Piloto Arturo FerrarinFatigados pela longa permanência no ar, os aviadores aguardaram junto à aeronave que alguém aparecesse para ajudá-los. Quinze minutos depois foram cercados por uma multidão de curiosos, composta em sua maioria por meninos e rapazolas que, esbaforidos de tanto correr, chegavam ao local da aterragem fazendo um grande alarido. Entre os primeiros a alcançar o avião encontravam-se os meninos Miguel Ribeiro Neri, José Felipe, Lucilo Afonso, Manoel Correia do Nascimento e Edgar Seabra, os quais tentavam, através de falas e gestos, algum tipo de comunicação com os pilotos, enquanto dos mesmos recebiam presentes de uvas e chocolates.

Algum tempo depois, veio ter ao sítio onde descera o avião o Pe. Manuel da Costa Pereira (vigário da freguesia de Touros entre 29 de janeiro de 1928 e maio de 1930), acompanhado do Juiz Distrital Ângelo Mariano Neri, dos senhores José Porto Filho, Fiscal Geral da Intendência, do comerciante Nelson Ferreira Patriota e dos senhores Joaquim Seabra Fagundes, João Eustachio da Costa, Francisco Gomes da Silva, Enéas Leite da Fonseca, Fábio Ferreira Patriota, José Eurico Alecrim e muitos outros moradores do lugar. De modo afável, e demonstrando grande simpatia pelos aviadores, os cidadãos de Touros procuravam compensar as tensões dos pilotos, ainda deprimidos em decorrência do pouso forçado, oferecendo-lhes uma alegre e pródiga acolhida.

Piloto Carlo Del PreteMantidos os primeiros entendimentos com os aviadores, através do latim do Vigário, foram eles conduzidos à vila, onde a população em peso os esperava. Ali, Del Prete e Ferrarin tornaram-se o alvo da curiosidade e da simpatia de grandes e pequenos. A convite do Padre Manuel da Costa Pereira, os pilotos ficaram hospedados em sua residência. A comunicação com as autoridades e a imprensa de Natal foi feita através do telégrafo. Devidamente informado da ocorrência, logo em seguida chegava à vila de Touros, procedente do Engenho Pureza, onde residia, o Sr. Joel Christino de Medeiros, Presidente da Intendência local, pondo à disposição dos pilotos facilidades e recursos.

Com a presença do Sr. Joel Christino, a população da vila foi mobilizada e cerca de 80 voluntários abriram uma estrada que possibilitou o deslocamento do avião do ponto em que aterrissou até um sítio indicado na praia pelos aviadores. Conduzidos em seguida para a capital do Estado, em Natal foram homenageados durante dias tratados como verdadeiros heróis.

Cônsul da Itália em Recife, Gino Romizi, o piloto Arturo Ferrarini, o governador Juvenal Lamartine, o piloto Carlo Del Prete e a cientista-ativista defensora do voto feminino no Brasil, Berta Lutz, durante jantarDias depois tiveram uma consagradora recepção no Rio de Janeiro. Afinal, não era para menos. Pilotando um incipiente avião (quando comparado com as maravilhas tecnológicas do presente), o Santa Maria, um Savoia-Marchetti S-64, eles tinham chegado a Touros, partindo de Montecelio, próximo a Roma, estabelecendo o recorde em vôo sem escalas. Em 58 horas e 30 minutos eles venceram uma distância de 7.158 quilômetros. Carlo Del Prete e Arturo Ferrarin, ícaros dos primórdios da aviação mundial, foram os italianos que estabeleceram o primeiro laço sem nó pelos ares entre a Itália e o Brasil.

No Brasil, contudo, um país que convive hoje naturalmente com cancelamentos de vôos comerciais, palco recente de várias tragédias na sua aviação, não há notícias de nenhuma comemoração para lembrar a façanha. Já na Itália, sua terra natal, um país onde sua principal companhia aérea agoniza em prejuízos, a mais relevante comemoração aconteceu no aeroporto da cidade de Thiene, que leva o nome de um dos heróis (Arturo Ferrarin), em Vicenza, região do Veneto. Houve exposição, serata musical, e exibições acrobáticas de pilotos.

Os Institutos de cultura, as representações diplomáticas, os órgãos do setor, seja aqui ou no Brasil, de uma maneira geral deixaram a data passar em branco. Muitos, ou talvez a maioria, até desconheça a existência e a importância desses cidadãos, tanto para o Brasil como especialmente para a Itália. Em 1978, por ocasião dos 50 anos da travessia, um selo comemorativo foi lançado no Brasil.

Seja como for, a trajetória desses dois italianos é uma narrativa real de pioneiros e espírito aventureiros, marcas de homens que arriscaram as suas próprias vidas dando contornos efetivos à aviação em uma época, a década de 20, que ficou conhecida como a década dos raids, travessias perigosas, a longas distâncias, em percursos inéditos. Por isso, antes da consagração do Rio de Janeiro, já haviam sido festejados em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Aliás, em reconhecimento ao acolhimento e carinho com que a população local os recebeu, Benito Mussolini, então primeiro-ministro italiano, presenteou a cidade com uma coluna romana, a coluna Capitolina. Originária do Monte Capitólio, evoca, na forma e na estrutura, o templo de Júpiter.

Inaugurada em 8 de janeiro de 1931, na esplanada do cais do porto, a coluna, com 5,80 metros de altura, apoiada em uma base com cerca de 3 metros quadrados, de mármore cinza, veio com duas placas de bronze, com as seguinte inscrição: Trazida de um só lance sobre assas velozes além de toda distância tentada por Carlo Del Prete e Arturo Ferrarin, a Itália aqui chegou a 5 de julho de 1928. O Oceano não mais divide e sim une as gentes latinas de Itália e Brasil”.

No Rio de Janeiro, igualmente, no bairro Laranjeiras, apesar dos moradores ignorarem de quem se trata, um dos heróis foi homenageado: uma praça recebeu o nome de Carlo Del Prete. E até uma escultura em forma de avião lembra a façanha.

DEL PRETE

O capitão Carlo Del Prete nasceu em Lucca, em 27 de agosto de 1897. Começou sua carreira militar como marinheiro, servindo em um submarino durante a I Guerra Mundial. Após o Armistício, tornou-se um aficcionado da aviação e recebeu o seu breve de piloto em 1922, ingrassando na Royal Air Force italiana, onde sempre foi referido como um navegador excepcionalmente qualificado. Antes do vôo inédito que o trouxe ao Brasil, participou de outra aventura, juntamente com outro pioneiro dos ares, Francesco de Pinedo, fazendo um vôo inédito para os Estados Unidos, como co-piloto e navegador. Pinedo o classificava como o seu alter-ego.

A TRAGÉDIA

Alguns dias após a chegada triunfal no Rio de Janeiro, Del Prete, que não conseguia conter sua ânsia por voar desafiadoramente, decidiu fazer alguns vôos rasantes entre a ilha do Governador e a então capital brasileira. Pois quem havia vencido mais de sete mil quilômetros, não conseguiu concluir um vôo curto. Seu avião caiu, Del Prete morreu aos 31 anos. O episódio provocou grande comoção popular, com milhares de pessoas acudindo às ruas para assistir o cortejo fúnebre, como documentou a imprensa da época. As revistas semanais inclusive tiveram alguma dificuldade para noticiar a recepção e a tragédia que se seguiu.

ARTURO FERRARI

Arturo Ferrari nasceu em Thiene em 13 de fevereiro de 1895. Sua paixão por voar se manifesta quando era jovem, em função dos episódios da I Guerra. Em 11 de julho de 1915 é convocado e incorporado ao batalhão de aviadores, integrando a 75ª esquadrilha de caças. Graças aos seu talento, consegue rapidamente o brevê de piloto militar e passa a integrar, em 1917, a 82ª esquadrilha e, em 1918, recebe duas medalhas pelas ações realizadas no teatro da guerra.

Em 1920, realiza sua primeira grande aventura, fazendo um vôo entre Roma e Toquio, com um biplano SVA, em 18 de julho de 1941, quando realizava um vôo experimental a bordo de um caça, o fim chegou. Durante a aterrissagem, Ferrarin morre com a idade de 46 anos.

Mas Ferrarin e Del Prete, embora ofuscados pelos heróis contemporâneos, criados e descartados pela indústria cultural a uma velocidade supersônica; embora esquecidos pelos sempre tão prestimosos bajuladores de plantão no poder, marcaram seu tempo e sua vida. Jamais serão superados. Eles foram os primeiros. Eles foram heróis em uma época que o único GPS que existia era a paixão e o destemor.

  ARQUIVO VIVO PARTE 3 

 

 


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